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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Mas que maravilha!

Enquanto aguardamos o seu regresso de Toronto, aqui fica uma crónica bem humorada de Bento Sampaio, no rescaldo das Festas do Senhor.
Ia-se ele já embora, despedindo-se com um beijo, voltou atrás, “ah, o tanque é muito melhor... lava na mesma e trabalha sem electricidade...”
Não é só a Natureza que proporciona o deslumbramento por tanta beleza que vai por esse mundo fora. As cataratas do Niagara, ou as do Duque de Bragança, já me haviam enchido os olhos de assombro. Por cá, a singularidade da Rocha dos Bordões, a mística catedral furnense da Graciosa, os nebulosos algares e também a altivez dos nossos picos, todos avassalavam-me a imaginação.
Mas ainda levaria um bom ror de anos para me pôr céus fora e pasmar-me com as quedas de Iguaçu, ou o sossego relaxante dos fiordes e mais e mais o que a Mãe-Natureza nos deixou como dote.
E outra maravilha havia de chegar na festa do Senhor Santo Cristo com a minha gente a acampar em minha casa por ficar bem perto da festa.
Alegrava-me tê-los naquele reboliço de fora-e-dentro, como se fossem filhos meus os cinco sobrinhos já nascidos. Ainda vinha longe o meu único rebento.
Chegáramos dos States havia seis meses e ainda muito se falava do sedutor american dream, “a gente lá...”, explicava aos meus irmãos a modernidade das soluções do american way of life.
Deixara-me, de facto, impressionar por aquele mundo de tecnologia de ponta – já os computadores eram lá uma realidade matutando dentro de grandes caixotes – “até nos controlavam as entradas e saídas”, e logo eles, “como?!”, e aquele cartão perfurado surpreendeu-lhes o avanço que levavam os americanos. Também as facilidades domésticas de toda a sorte fascinavam a minha gente.
Todavia, só isso tinha a terra dos meus american friends, sem falar do muito saber de tantos laureados com o Nobel. Mas quem sabe se não lhes falta, talvez, uma alma de povo remoto? – deixem para lá, são coisas minhas…
Bem, na sexta-feira da festa do Senhor, veio a mais apreciada maravilha numa casa – a máquina de lavar roupa.
E como podiam os meus ter um brinquedo tão útil, se a nossa Ponta Garça ainda era um refúgio só para poetas? Os tanques de lavar – das Grotas Fundas, da Fonte de Vime e o da Fonte da Sinhara – trabalhavam em grande, e a electricidade só viria um ano e meio mais tarde, como prenda no Sapatinho do Natal de ’73.
Com a rapaziada porta fora para o arraial, que a novidade era mesmo a folia dos carroceis, gelados de pouco a pouco e o folguedo de furar por entre gentes aos magotes no Campo, os maiorais – esses não – quiseram ver a coqueluche instalada no quarto de banho do apartamento que arrendara na rua do Saco, e observar como aquilo funcionava.
A Westighouse, para ser paga em dez prestações, mais parecia o nosso bebé que viria em ’74 – tem a quem saia, é todo loiro, diriam depois – mas era a ela que todos queriam ver e como seria aquilo de lavar roupa fora do tanque...
Sem roupa suficiente para enchê-la, inventou-se outra – o Inverno dispensara-nos da cama os fortes cobertores – “vai ser isto mesmo”, decidiu minha mulher em favor daquele espectáculo ao vivo, que ela, em boa verdade, também queria exibir o trofeu, como se fora ela a obreira da preciosidade.
Pois é... Somos assim. Não há como se lhe dê outro jeito. Tudo o que é nosso, e novo da peça, e a família em primeiro lugar, valem mais que o mundo todo junto, e óptimo que se estime o material e ao sangue se dê o apreço devido. Mas digam lá: todos os cacos... – mesmo um carro padecendo de velho, a pecha da telha corrida – merecem uma defesa férrea como sendo coisa nova do trinco? São presunções.
Adiante...
Um programa para roupa pesada requeria mais tempo, “isto leva quase uma hora”, e ainda por cima cobertores, “vai ter que ser com água quente”, e questionaram-se de pasmo, “ela lava a quente?!”.
Claro está, se quisessem acompanhar todo o programa, boa parte do serão da segunda-feira da festa teria de ser passado na casa de banho...
Que importava se todos queriam contar quantas voltas, e enche e vaza, e ver o sabão que se foi, e torna a encher e esperar que o amaciador também se fosse, “olhem, já está bem quente!”, mais água dentro e outra fora, “pouco me importa a festa...”, descartou-se a minha cunhada mais velha, “e já agora, também quero ver...”, decidiu-se a outra, em vias de se casar, e minha irmã, “isso é mesmo uma maravilha”, e a minha sobrinha mais velha, “também fico com a mãe”. Embasbacados, os manos fumavam... e as outras, ala de se acomodarem na borda da banheira, no bidé e na sanita... Só minha mãe assistiu ao espectáculo numa cadeira fofa.
Meu pai não era homem de festas, desprendera-se cedo da vida, “eu já morri...”, dizia-nos com a convicção de que a velhice é um prefácio que enfeita a morte...
Só o vira uma vez na festa a pagar uma promessa de joelhos, ao Senhor milagreiro, agradecendo mais uns anos de vida, depois da remoção de um tumor maligno, “se Deus ainda me quer por cá, hei-de fazer por isso” – e fez o que lhe estava à mão.
Um dia, sabendo-me em casa ao almoço, apareceu, “venho ver essa admiração...”. Atrapalhado sem roupa à mão, inventei uns panos, toalhas e tapetes... “que mistura...”, puxou-me as orelhas quem era, de verdade, a obreira de uma lavação de jeito.
Meu pai assistiu por pouco tempo, “a lavagem demora, não é?”, e quis saber o consumo de energia, franzindo o sobrolho, “mas é uma maravilha...”, e fiquei satisfeito com a sua apreciação.
Ia-se ele já embora, despedindo-se com um beijo, voltou atrás, “ah, o tanque é muito melhor... lava na mesma e trabalha sem electricidade...” – o seu aparte definia-o como um homem do seu tempo.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A crise segundo Einstein.

"Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera-se a si mesmo sem ficar superado. Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, viola o seu próprio talento e respeita mais aos problemas do que às soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la."

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Numa noite tempestuosa*

A vida vale pouco – tudo mente
É breve a infância e curta a mocidade
Gasta-se o tempo em busca da verdade
Que tanto esmaga e dilacera a gente.

É sempre mais feliz quem menos sente
Quem de ter valor se persuade
No coração humano há só vaidade
E quem a satisfaz vive contente.

Por isso te amo tanto, oh! Natureza
Linda, potente, majestosa e forte
Sempre nova na graça e na beleza.

Ser venturosa não me coube em sorte
Mas do teu esplendor minh’alma presa
Só por mais te não ver me custa a morte!

Amélia Janny
(1841- 1914)
*Sem título, mas escrito numa noite tempestuosa
Enviado por JBS

terça-feira, 17 de março de 2009

É pegar ou largar.

Aqui vai uma crónica de Bento Sampaio, do seu Viagens no Tempo, enviada a propósito do artigo sobre a Rua do Frias:
"eram, eram, antes de chover, mas agora chove mesmo...”, e esboçou aquele sorriso brando de quem tinha a vida a correr-lhe bem.
Às vezes, torna-se difícil tomar uma decisão. Mas porquê tanta dúvida em definir uma atitude? Mal sabemos até a razão da delonga, porque tudo indicava naquele caminho. E, pronto, adiante – fica para outra ocasião.
Uma pessoa, à minha frente, assume-se, “sim, esse aí”, dirige-se para uma moça loira, enxuta, não tem mais que dezoito anos, duas tranças a enfeitar-lhe aquele gracioso gesto de adolescente e um sorriso brando a adocicar-lhe o semblante. E ela, satisfeita com mais uma venda, volta-se para outro cliente, ainda indeciso, “olhe que vai chover... são só dez escudos”, mas ele segue em frente, apostando numa melhoria do tempo.
E eu imitei-o – quem sabe se é só uma nuvem escura, negra não parece tanto assim –, “olhe que vai chover... são só dez escudos”, repete a jovem, vezes sem conta, o mesmo proclamo daquela tarde, no falar dela, ameaçando chuva copiosa.
Mas eu, fazendo orelhas moucas, trepei, depressa, a escadaria do palácio dos condes de Alvor, e meti-me dentro do museu das “Janelas Verdes”; começava, naquele preciso instante, a chuviscar.Bem, tinha-me livrado, a tempo, de gastar uns patacos na compra do guarda-chuva, dinheiro que me fazia mesmo falta. Havia chegado a Lisboa, nos finais de Dezembro de 1963, para engrossar, no fim de Janeiro, as fileiras da recruta, em Mafra, e tinha de gizar bem os meus gastos.
Agora, importava mergulhar na Arte Antiga do vasto museu. Lá dentro, logo na primeira sala, um valente estrondo ressoou e a luz deu sinal de se finar. Com aquela tremenda trovoada, cedo me veio à lembrança o meu pai falar do tempo em Lisboa, “em pleno Inverno, há dias seguidos de muito sol, frios de rachar”, e eu quase não queria ouvir o resto da sua recomendação, “mas quando desata a chover, são dias a fio”.
Arrepiei-me só de pensar como chegaria a casa, feito numa grande sopa. Fiz o possível para guardar, para mais tarde, essa apoquentação, já bem evidente, e os sapatos encharcados?... e um resfriado?...
Cada coisa a seu tempo, parecia o melhor conselho, lá isso parecia, só que a consumição ia tomando conta de mim.
De sala em sala, ia admirando as preciosidades de arte antiga, mas o retinir da chuva, a verdascar as grandes janelas, fazia com que desse de caras com a tal moça loira – imagine-se – estampada numa grande tela, a fixar-me intensamente, “olhe que vai chover... são só dez escudos”.
Procurando abstrair-me da situação penosa, que, na certa, me esperava lá fora, decidi-me demorar um bocado, em frente dos célebres Painéis de São Vicente, pedindo, ao patrono de Lisboa, clemência para a pena que iria cumprir no regresso a casa.
Mas não tinha conserto, a chuva era impiedosa, queria ela lá saber da minha angústia, “mas quando desata a chover, são dias a fio”, parecia até que meu pai se estivesse a rir da situação, “és novo, tens muito que aprender...”. Não, ele era incapaz de zombar do meu embaraço. Aligeirei a visita, que deveria ser demorada, e fiquei-me a pensar, junto de um cofre veneziano, como que a adivinhar-lhe o poderio de dinheiro, que tivera em outros tempos, e que daria para comprar todas as lojas de guarda-chuvas do mundo...
Qual seria o melhor caminho, para chegar a casa, ou melhor, que eléctrico, ou autocarro deveria tomar, e ainda, se voltaria a descer a escadaria para a avenida 24 de Julho. Precisava de companhia – um guarda-chuva.
Neste mister, ia a deixar o museu e não é que uma voz conhecida, “olhe que chove... são só doze mil e quinhentos”, voltou à baila, ali no átrio. Era ela, a mesma moça loira, satisfeita com o negócio a correr-lhe de feição.
Não tinha alternativa possível, ou investia no guarda-sol, como se dizia na minha tão distante Ponta Garça, ou, então, sujeitava-me a uma grande molha, até apanhar o primeiro transporte, “esse aí”, decidi-me e apontei para um, com o pano em xadrez. Tirei dez escudos, e, não ligando ao novo preço, meti-lhe na mão duas moedas de cinco.
Isso é que era bom... “não, não, são doze mil e quinhentos”, ripostou vigorosa, e eu apeguei-me ao preço anterior do proclamo, “mas, há bocadinho, eram só dez escudos...”, tentei a minha sorte, “eram, eram, antes de chover, mas agora chove mesmo...”, e esboçou aquele sorriso brando de quem tinha a vida a correr-lhe bem. E pus-me a cismar: a hora do negócio é só uma, é pegar ou largar...