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quarta-feira, 16 de março de 2011

Ao Cónego José Garcia

Requiem æternam dona eis, Domine,
Et lux perpetua luceat eis
Riquiescant in pace.
Amen.

Que a sua alma descanse em paz, no seio da Eternidade que tão solenemente anunciou ao mundo, em 57 anos de dedicado sacerdócio.
Ao grande mestre da liturgia desta diocese, maior entre aqueles a quem foi dado o dom de compreender a extraordinária beleza e riqueza da ars celebrandis, dessa profunda reverência que é devida pelo homem perante Deus sacrificado no altar.
Nascido a 11 de Agosto de 1928 no Salão, na Ilha do Faial, foi ordenado presbítero a 8 de Dezembro de 1954 na igreja de Nª. Sª. da Conceição de Angra do Heroísmo. Exerceu o seu ministério em 16 Paróquias desta Diocese, tendo sido marcante a sua passagem pela Sé Catedral. Foi aí um mestre prático da Liturgia, marcante para a geração dos que, como eu, alunos do Seminário, tinham na Catedral de então uma presença viva da Igreja Católica, bem mais rica e espiritual que as novas experimentações que faziam as modas... Riqueza que a nossa Sé mantém e cultiva, não fosse o seu actual Pároco e Vigário Geral da Diocese nado e criado nos territórios da Catedral e seu paroquiano.
O Cónego José Garcia fez parte de uma geração de padres que muito deram à Igreja com dedicado zelo e carinho. Era um verdadeiro padre do seu tempo. Dedicava-se e amava a Igreja. Se às vezes não escondia tristeza com o estado a que os novos tempos tinham conduzido as coisas de Deus, também mostrava sempre a sua alegria pelo mais pequeno pormenor que viesse ao serviço da Santa Madre.
Homem de cultura superior, nestes últimos anos em que serviu a nossa cidade, mostrava um carinho muito grande pelo seu precioso Coral de São José. Os dois anos em que tive o gosto e a honra de dirigir o Coro, no Natal e na Semana Santa, foram uma experiência extraordinária pelos pequenos gestos de bondade e ensinamento deste grande Homem.
Lembro-me da primeira Missa em que cantámos, em que o nosso Gonçalo, com 6 anos, como não podia deixar de ser, acompanhou-nos acolitando com o seu traje de Menino do Coro. Foi com os olhos molhados que o velho senhor se dirigiu num repente a casa, no final da Missa, para vir trazer uma caixinha de chocolates, manifestando com aquele gesto simples o seu apreço e agradecimento pela postura da criança, lembrando-lhe os seus próprios tempos de menino...
Uma outra vez ensaiávamos no grandioso Coro Alto o belíssimo Te Deum de Perosi para o final do ano. Qual não foi o meu espanto ao ver àquela hora da noite entrar o Reverendo Pároco embevecido pela música que conseguira escutar em casa, pedindo-me se o autorizava a cantar com o Coro naquele ensaio: "Senhor Maestro, nós cantavamos isto no Seminário. Eu era tenor. Dá-me licença que vá para os tenores? Ouvi ao longe e não consegui não vir aqui..."
Penso que dificilmente um maestro ou um Coro conseguem ter melhor elogio de um Pároco.
Falecido ontem, 15 de Março de 2011, é hoje enterrado no cemitério de São Joaquim, havendo solenes exéquias às 14.00 na sua última menina dos olhos - a opulenta Igreja de São José.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A Música na Liturgia

112. “A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte…”
116. “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”.
118. “Promova-se muito o canto popular religioso…”
36. “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos…poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo … em algumas orações e cantos…”
In Constituição A Sagrada Liturgia

Ou, no saber de Joseph Ratzinger: “Gandhi evidencia três espaços de vida do Cosmo e mostra como cada um destes três espaços vitais comunica também um modo próprio de ser. No mar vivem os peixes e silenciam. Os animais sobre a terra gritam, mas os pássaros, cujo espaço vital é o céu, cantam. Do mar é próprio o silenciar, da terra o gritar e do céu o cantar. O homem, porém, participa de todos os três: ele carrega em si a profundidade do mar, o peso da terra e a altura do céu; por isto são suas as três propriedades: o silenciar, o gritar e o cantar. Hoje (...) vemos que ao homem privado de transcendência permanece somente o gritar, porque deseja ser somente terra e procura transformar também o céu e a profundidade do mar em sua terra. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos, devolve-lhe a sua totalidade. Ensina-lhe novamente o silenciar e o cantar, abrindo-lhe a profundidade do mar e ensinando-o a voar, o ser do anjo; elevando o seu coração, faz ressoar de novo nele aquele canto que se havia adormecido. Ou ainda, podemos dizer que a verdadeira liturgia se reconhece exactamente no facto de que esta nos liberta do agir comum e nos restitui a profundidade e a altura, o silêncio e o canto. A verdadeira liturgia reconhece-se no facto de ser cósmica, e não sob a medida de um grupo. Ela canta com os anjos. Ela silencia com a profundidade do universo à espera. E assim ela redime a terra”.
In Cantate al Signore un Canto Nuovo, pp. 153-154

Eis em breves linhas as principais determinações para o papel da Música na Liturgia e o seu sentido último aqui metaforicamente descrito pelo actual Pontífice Reinante, Bento XVI.

Os Coros e Capelas têm assim a dificílima tarefa de ajudar os fiéis a participar espiritualmente no Sacrifício Eucarístico, o que exige elevação, missão bem mais profunda e trabalhosa do que pôr a Assembleia meramente em acção, a como infelizmente nos acomodamos em muitas das nossas comunidades.
Infelizmente, ou por muitos dos responsáveis eclesiásticos não serem gente da Música ou da arte, ou por muitos dos responsáveis da Música e da arte na Igreja não serem gente crescida na liturgia, só agora, com o refrescar da memória do verdadeiro conteúdo dos documentos conciliares, com a subida ao trono pontifical do grande teólogo citado, com o esforço incansável, persistente e decido do Santo Padre, passados quarenta anos, se começa a perceber o erro de algumas das ligeirezas que nos foram ensinadas por responsáveis da própria Igreja, às gerações mais novas, muito próprias dos devaneios da época, certamente com a melhor das intenções, mas que afinal eram fruto de falta de estudo e má interpretação do próprio Concílio – “diz-se que agora é assim” - além de terem resultado no esvaziamento das Igrejas a que fomos assistindo nestes anos de “aproximação aos tempos de hoje”!
Claro que a verdadeira Música Sacra dá trabalho a ensaiar, a executar e, às vezes, até a fazer compreender e chegar ao seu fim último, que é a interiorização e a espiritualidade.
Claro que, à primeira vista, sobretudo nos meios mais periféricos que não são nem bucolicamente rurais, nem culturalmente urbanos, as pessoas, ao primeiro instinto, preferem coisas mais ligeiras, que lhes puxe ao sentimentalismo primário que está à flor da pele. Dá a mesma alegria de quem traz para casa sacos cheios de compras.
Nessa versão a Missa é festa, é folia, é palmas… rapidamente se transformando em biatisse e a pieguisse de muito calor entre os homens, mas de conteúdo muito frio entre os homens e o Sacrificado no Altar!
A Missa serve para fazer o Homem encontrar-se com Deus, interiorizar, participar da Sua paixão e morte, crendo na Sua Ressurreição.
Aliás, só esse é o sentido do apelo à participação do Concílio Vaticano II, conforme o Magistério da Igreja, muitas vezes confundido com o perturbador activismo dos leigos na liturgia.
A Missa será assim Ritual? Claro!
Mas vamos ficar presos a fórmulas? Não devemos inovar e adaptar? Devemos, quem? Quem é um para se achar superior a quantas gerações nos legaram a Tradição ou aos tantos que estudam a Liturgia com profundidade ou a vivem com tão maior espiritualidade?
A Missa só é Solene se for Ritual: com a sacralidade que cada palavra transporta, na oração ou no canto!
Aliás, a discussão sobre o tema é quase inócua. Só há uma forma de o fazer: mostrando na prática quão mais rica é a liturgia quando envolta na arte da música sacra trabalhada sobre a intemporalidade do latim.
Hoje, que a maior parte dos que gritavam por simplismo e banalidade abandonou a Igreja à medida que o foi conseguindo, restando já apenas alguns saudosistas das velharias ideológicas dos anos sessenta, o tempo para os cristãos é de amadurecermos e entendermos a riqueza da Liturgia, de alma e coração, convictamente, aprofundando o trabalho litúrgico que a Igreja nos tem desafiado a fazer, percorrendo na celebração da Fé o caminho que distingue a nossa pequenez e miséria da grandeza e do esplendor de Deus.
Só é digno de Deus o melhor que cada Homem consegue.
Desde logo o Canto e a Liturgia.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O Dia Mundial da Juventude em São Miguel

No Domingo de Ramos já é tradição celebrar-se o Dia Mundial da Juventude nesta Ilha com grande dimensão, acolhendo cada Ouvidoria, em cada vez, as centenas e centenas de jovens que, de toda a Ilha, aí acorrem.
Em prol do maior dos ideais, em nome do verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, provando que a Igreja continua viva como a de sempre, por Fé, por partilha ou por simples motivação, os jovens católicos de São Miguel mostram força, dinamismo, entusiasmo e dedicação, e que nem todos andam “à rasca”: por não terem um Ideal, um rumo para a sua própria vida, um desafio que os motive, senão mesmo uma família que os eduque.
Dão provas de que estão longe de ser apáticos, com certeza que os há, até em abundância maior do que a desejável, mas a capacidade de criar e executar algo que os motive fica bem patente nos tantos e tantas que, para além da sua participação viva, ali levam canções, teatros e coreografias, com qualidade e de forma saudável.
A grandiosidade do momento mostra ser a Igreja a única que consegue mobilizar uma tão rica massa de juventude.
Ter personalidade não é ser uma cópia do estereotipado “jovem radical”. É procurar realização como pessoa e ter a coragem de ser feliz.
De anos a anos cruzo-me com este dia e, embora não sendo um entusiasta do “festival litúrgico”, impressiona-me sempre o dinamismo que o dia consegue congregar.
Lembro-me de, na Lagoa, em 1990, me ter cabido a regência do Coro dos Seminaristas; em 1992, ter ensaiado o grande Coro na Ribeira Grande, com o Coro Jovem da Matriz de Ponta Delgada e centenas de jovens daquele concelho; em 2001, ter integrado o Júri do Festival da Canção, em Vila Franca; em 2009, também em Vila Franca, ter composto a singela Música para o Festival novamente em Vila Franca, embora já desabituado do estilo; e, em 2010, ser chamado a, passados 18 anos, voltar a dirigir o Canto tentando dar solenidade ao dia e o devido cunho litúrgico ao momento.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A Música e a Liturgia

112. “A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte…”
116. “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”.
118. “Promova-se muito o canto popular religioso…”
36. “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos…poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo … em algumas orações e cantos…”
In Constituição A Sagrada Liturgia
Ou, no saber de Joseph Ratzinger: “Gandhi evidencia três espaços de vida do Cosmo e mostra como cada um destes três espaços vitais comunica também um modo próprio de ser. No mar vivem os peixes e silenciam. Os animais sobre a terra gritam, mas os pássaros, cujo espaço vital é o céu, cantam. Do mar é próprio o silenciar, da terra o gritar e do céu o cantar. O homem, porém, participa de todos os três: ele carrega em si a profundidade do mar, o peso da terra e a altura do céu; por isto são suas as três propriedades: o silenciar, o gritar e o cantar. Hoje (...) vemos que ao homem privado de transcendência permanece somente o gritar, porque deseja ser somente terra e procura transformar também o céu e a profundidade do mar em sua terra. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos, devolve-lhe a sua totalidade. Ensina-lhe novamente o silenciar e o cantar, abrindo-lhe a profundidade do mar e ensinando-o a voar, o ser do anjo; elevando o seu coração, faz ressoar de novo nele aquele canto que se havia adormecido. Ou ainda, podemos dizer que a verdadeira liturgia se reconhece exactamente no facto de que esta nos liberta do agir comum e nos restitui a profundidade e a altura, o silêncio e o canto. A verdadeira liturgia reconhece-se no facto de ser cósmica, e não sob a medida de um grupo. Ela canta com os anjos. Ela silencia com a profundidade do universo à espera. E assim ela redime a terra”.
In Cantate al Signore un Canto Nuovo, pp. 153-154

Eis em breves linhas as principais determinações para o papel da Música na Liturgia e o seu sentido último aqui metaforicamente descrito pelo actual Pontífice Reinante, Bento XVI.
Os Coros e Capelas têm assim a dificílima tarefa de ajudar os fiéis a participar espiritualmente no Sacrifício Eucarístico, o que exige elevação, missão bem mais profunda e trabalhosa do que pôr a Assembleia meramente em acção, a como infelizmente nos acomodamos em muitas das nossas comunidades.
Infelizmente, ou por muitos dos responsáveis eclesiásticos não serem gente da Música ou da arte, ou por muitos dos responsáveis da Música e da arte na Igreja não serem gente crescida na liturgia, só agora, com o refrescar da memória do verdadeiro conteúdo dos documentos conciliares, com a subida ao trono pontifical do grande teólogo citado, com o esforço incansável, persistente e decido do Santo Padre, passados quarenta anos, se começa a perceber o erro de algumas das ligeirezas que nos foram ensinadas por responsáveis da própria Igreja, às gerações mais novas, muito próprias dos devaneios da época, certamente com a melhor das intenções, mas que afinal eram fruto de falta de estudo e má interpretação do próprio Concílio – “diz-se que agora é assim” - além de terem resultado no esvaziamento das Igrejas a que fomos assistindo nestes anos de “aproximação aos tempos de hoje”!
Claro que a verdadeira Música Sacra dá trabalho a ensaiar, a executar e, às vezes, até a fazer compreender e chegar ao seu fim último, que é a interiorização e a espiritualidade.
Claro que, à primeira vista, sobretudo nos meios mais periféricos que não são nem bucolicamente rurais, nem culturalmente urbanos, as pessoas, ao primeiro instinto, preferem coisas mais ligeiras, que lhes puxe ao sentimentalismo primário que está à flor da pele. Dá a mesma alegria de quem traz para casa sacos cheios de compras.
Nessa versão a Missa é festa, é folia, é palmas… rapidamente se transformando em biatisse e a pieguisse de muito calor entre os homens, mas de conteúdo muito frio entre os homens e o Sacrificado no Altar!
A Missa serve para fazer o Homem encontrar-se com Deus, interiorizar, participar da Sua paixão e morte, crendo na Sua Ressurreição.
Aliás, só esse é o sentido do apelo à participação do Concílio Vaticano II, conforme o Magistério da Igreja, muitas vezes confundido com o perturbador activismo dos leigos na liturgia.
A Missa será assim Ritual? Claro!
Mas vamos ficar presos a fórmulas? Não devemos inovar e adaptar? Devemos, quem? Quem é um para se achar superior a quantas gerações nos legaram a Tradição ou aos tantos que estudam a Liturgia com profundidade ou a vivem com tão maior espiritualidade?
A Missa só é Solene se for Ritual: com a sacralidade que cada palavra transporta, na oração ou no canto!
Aliás, a discussão sobre o tema é quase inócua. Só há uma forma de o fazer: mostrando na prática quão mais rica é a liturgia quando envolta na arte da música sacra trabalhada sobre a intemporalidade do latim.
Hoje, que a maior parte dos que gritavam por simplismo e banalidade abandonou a Igreja à medida que o foi conseguindo, restando já apenas alguns saudosistas das velharias ideológicas dos anos sessenta, o tempo para os cristãos é de amadurecermos e entendermos a riqueza da Liturgia, de alma e coração, convictamente, aprofundando o trabalho litúrgico que a Igreja nos tem desafiado a fazer, percorrendo na celebração da Fé o caminho que distingue a nossa pequenez e miséria da grandeza e do esplendor de Deus.
Só é digno de Deus o melhor que cada Homem consegue.
Desde logo o Canto e a Liturgia.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Regresso da Liturgia...

In The New York Times
Por Kenneth J. Wolfe

AO ENTRAR na igreja há 40 anos atrás muitos católicos romanos talvez tenham se indagado onde estavam. O sacerdote não somente falava em inglês ao invés de latim, mas também estava voltado para os fiéis e não para o sacrário; os leigos assumiam os deveres anteriormente reservados aos sacerdotes; a música popular enchia o ar. As grandes mudanças do Vaticano II haviam chegado a casa.
Tudo isso foi uma ruptura radical da Missa Tradicional em Latim, codificada no XVI século, do Concílio de Trento. Durante séculos a Missa servia como um sacrifício estruturado com diretrizes, chamadas “rubricas” que não eram opcionais. É assim que a coisa é feita, dizia o livro. Tão recentemente quanto 1947, o Papa Pio XII havia emitido uma encíclica sobre liturgia que zombava da modernização. Ele dizia que a ideia de mudanças à Missa Tradicional em Latim lhe “afligia dolorosamente”.
Paradoxalmente, entretanto, foi o próprio Pio [XII] o grande responsável pelas mudanças significativas de 1969. Foi ele que nomeou o arquiteto chefe da Missa nova, Aníbal Bugnini, para a comissão de liturgia do Vaticano, em 1948.
Bugnini nasceu em 1912 e foi ordenado sacerdote vicentino em 1936. Embora Bugnini mal tivesse uma década de trabalho em paróquia, Pio XII constituiu-o secretário para a Comissão da Reforma Litúrgica. Nos anos 1950, Bugnini conduziu uma grande revisão das liturgias da Semana Santa
O papa seguinte, João XXIII, nomeou Bugnini secretário para a Comissão Preparatória para a Liturgia do Vaticano II, cargo no qual ele trabalhou com clérigos católicos e, surpreendentemente, alguns ministros protestantes nas reformas litúrgicas. Em 1962 ele escreveu qual viria a ser a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, o documento que deu a forma da Missa nova.
Muitas das reformas de Bugnini objectivaram agradar aos não católicos, e foram feitas alterações imitando cultos protestantes, incluindo a colocação de altares virados para o povo, em vez de um sacrifício em direção ao oriente litúrgico. Como ele afirmou, “precisamos tirar da nossa liturgia católica tudo o que possa constituir a sombra de uma pedra de tropeço para os nossos irmãos separados, ou seja, para os protestantes.” (Paradoxalmente, os anglicanos que se unirão à Igreja Católica em razão da mão estendida do papa actual usarão a liturgia que sempre apresenta o sacerdote voltado na mesma direção da assembleia).
Como foi que Bugnini foi capaz de fazer mudanças tão avassaladoras? Em parte porque nenhum dos papas a quem ele serviu eram liturgistas. Bugnini modificou tantas coisas que o sucessor de João, Paulo VI, algumas vezes, não sabia das últimas diretrizes. Certa vez o papa questionou as vestes que sua equipe lhe havia designado, dizendo que elas eram da cor errada, somente para ouvir que ele havia eliminado a celebração de Pentecostes com duração de uma semana e que não podia vestir os respectivos trajes vermelhos para a Missa. O mestre de cerimónias do papa à época assistiu Paulo VI a debulhar-se em lágrimas.
Bugnini caiu da graça nos anos 70. Rumores espalharam-se na imprensa italiana de que ele era maçom, que, caso seja verdade, teria merecido a excomunhão. O Vaticano nunca negou as queixas, e em 1976 Bugnini, que naquela época era um arcebispo, foi exilado para um cargo formal no Irã. Ele faleceu no esquecimento, em 1982.
Mas o seu legado sobreviveu. O Papa João Paulo II continuou as liberalizações da Missa, permitindo que mulheres actuassem no lugar de acólitos e permitiu que homens e mulheres não ordenados distribuíssem a comunhão nas mãos de fiéis de pé. Mesmo organizações conservadores como a Opus Dei adoptaram as reformas da liturgia liberal.
Porém, Bugnini poderá ter finalmente encontrado o seu antagonista à altura em Bento XVI, ele mesmo um renomado liturgista que não é fã dos últimos 40 anos de alterações. Cantar em latim, vestir trajes antigos e distribuir a comunhão somente nas línguas (em vez das mãos) de católicos ajoelhados, lentamente Bento reverteu as inovações de seus predecessores. E a Missa em Latim está de volta, pelo menos, de maneira limitada, em locais como Arlington, Va., onde uma em cada cinco paróquias oferecem a liturgia antiga.
Bento compreende que os seus jovens padres e seminaristas – a maioria nascida depois do Vaticano II – estão ajudando a conduzir uma contra-revolução. Eles apreciam a beleza da Missa solene e o seu respectivo canto, incenso e cerimónia. Sacerdotes de batina e freiras de hábito podem ser vistas novamente; sociedades tradicionalistas como o Instituto Cristo Rei estão se expandindo.
No início desta década, Bento (então Cardeal Joseph Ratzinger) escreveu: “O facto do sacerdote se voltar para as pessoas fez com que a comunidade se transformasse num círculo fechado. Em sua forma externa, ela não mais se abre para o que está acima, mas está fechada em si mesma.” Ele estava certo: 40 anos de Missa nova trouxeram o caos e a banalidade no sinal mais visível e externo da igreja. Bento XVI quer um retorno à ordem e ao sentido. Assim, ao que parece, a próxima geração de católicos faz a mesma coisa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Igreja aberta aos Anglicanos.

Numa decisão surpreendente, o Santo Padre abriu as portas da Igreja Católica ao clero e fiéis anglicanos que queiram manter as suas tradições e ritos. Através da criação de Ordinariatos Pessoais, como a estrutura da Opus Dei, poderão os anglicanos ingressar na Igreja Católica mantendo a sua identidade e costumes. Unidade com respeito pela sua identidade histórica.
Num gesto também inédito, em Inglaterra, a Igreja Católica e a Igreja Anglicana, em conjunto, fizeram uma conferência de imprensa louvando a decisão do Vaticano.
Embora tendo contra si a esmagadora maioria dos obreiros da secularização, este Papa marcará a Igreja como o Papa da unidade entre os verdadeiramente crentes.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

São Domingos de Gusmão.

Celebra-se, a 8 de Agosto, São Domingos de Gusmão.
Na noite de 24 de junho do ano de 1170, na pequena cidade de Caleruega, em Castela, Província de Burgos na Espanha, nascia Domingos, o filho caçula do Conde, Dom Félix de Gusmão, e de Dona Joana D’Aza. Antes de nascer, sua mãe, profundamente religiosa, teve um sonho misterioso: viu um cão que trazia na boca uma tocha acesa que irradiava uma grande luz sobre o mundo (assim como o cão é fiel ao dono, São Domingos seria fiel a Deus, e, com a tocha acesa, incendiou o mundo no amor de Deus). Na Pia Batismal recebe o nome de Domingos, em homenagem ao Santo Abade Domingos de Silos.
Ainda pequeno, já em idade escolar, foi confiado aos cuidados de um tio padre que lhe ensinou as matérias elementares, além das funções litúrgicas e pastorais. Quando completa 15 anos, aluga um quarto de pensão na cidade de Valência, e lá, dedica-se integralmente aos estudos na célebre Universidade de Valência. Destaca-se nas ciências liberais, cujo programa era a gramática, dialética, lógica, retórica, aritmética, música, geometria e astronomia. Estudou também filosofia, teologia, sendo ordenado sacerdote.
Como Padre acompanhou o Bispo de Osma e, na viagem, pôde sentir de perto o problema religioso do sul da França e de outras regiões européias, infestadas por grupos religiosos, fanáticos e subversivos. Domingos decidiu permanecer no sul da França, dedicando-se junto com alguns sacerdotes, na simplicidade e na pobreza, ao ensinamento da Doutrina Cristã. Deste grupo de pregadores surgiu a Ordem dos Pregadores ou Dominicanos, cujas características fundamentais eram a espiritualidade sacerdotal com profunda formação teológica; a devoção à Igreja, às almas e ao culto da verdade; a vida comunitária como meio ascético de santificação para maior desempenho da vida e da acção sacerdotal; e a espiritualidade apostólica, sobretudo na pregação.
Domingos era apaixonado pela música e disto fez uso muitas vezes durante sua vida. No entanto, a grande alegria do jovem Pe. Domingos era caminhar por estradas, bosques e montes, cantando a “Salva Rainha”, meio pelo qual não cessava de louvar e enaltecer a Mãe do Filho de Deus, cantando-lhe as maravilhas dentro de uma poesia rica de lirismo e sentimento, muito próprio de sua época. Reconhecia o valor dos que se enclausuravam, mas sabia que era também preciso agir, falar, fazer algo para que o Evangelho fosse anunciado. Assim, ele compreendeu a contemplação como meio principal pelo qual se formaria o missionário, o apóstolo, através da oração, do estudo e da reflexão. É como se o dominicano fosse um vasilhame que colheu água da fonte para que os outros pudessem depois bebê-la. Por isso é que a Ordem tem por lema: “Dar aos outros o fruto da nossa contemplação”.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A Primeira Comunhão.

No passado Domingo do Bom Pastor, bonita e radiosa, tomou a Primeira Comunhão a muito estimada afilhada Maria Helena, na Paroquial Igreja de Cristo Rei, em Algés.
Momento marcante na nossa vida cristã, o primeiro em que se recebe a Sagrada Eucaristia, em que a alegria simples das crianças se faz Festa.
Que o seja por muitos anos e sempre na busca do Bem.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Hino popular a Dom Nuno.

Herói e Santo,
Dom Nuno imortal,
Valei à terra de Portugal!

I
Dom Nuno Álvares Pereira
Nosso encanto e nossa glória,
Retomai vossa Bandeira
E levai-nos à vitória.

II
Em vosso peito de crente
E robusto lutador
Ardem continuamente
Chamas de fé e amor

III
Carmelita e Cavaleiro,
Abraçando a Cruz da Espada,
Mostraste ao mundo inteiro
O valor da Pátria Amada.

IV
Ébria de sonho e de aurosa,
Voss'alma fremente e bela,
Brilhou nas eras de outrora
Mais alto do que uma estrela.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Ao Beato Nuno de Santa Maria.

O túmulo de Nuno Álvares Pereira foi destruído no terramoto de 1755. O seu epitáfio era: "Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo."
Domingo, na Cidade Eterna, a Pátria engrandece-se. Como disse o Cardeal Patriarca, em Lisboa, o Beato Nuno é do melhor que Portugal teve na sua História: um Homem da causa pública e de fé.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uma Encíclica sempre actual.

CARTA ENCÍCLICA DO SUMO PONTÍFICE S. PIO X, PASCENDI DOMINICI GREGIS
Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica,

Veneráveis Irmãos, saúde e benção apostólica,

A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do género humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo.
Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos. E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os proclamadores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasfemam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e, cerrando ousadamente fileiras, se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem.
Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá, porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam os seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado.
Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias: porquanto fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e, sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera. Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados numa consciência falsa, persuadem-se de que é amor da verdade o que não passa de soberba e obstinação. Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los a melhores sentimentos e, para este fim, a princípio os tratamos com brandura, em seguida com severidade e, finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas.Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi debalde; pareceram por momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com maior altivez. Poderíamos talvez ainda deixar isto desapercebido se tratasse somente deles; trata-se porém das garantias do nome católico.
Há, pois, mister quebrar o silêncio, que ora seria culpável, para tornar bem conhecidas à Igreja esses homens tão mal disfarçados.
E visto que os modernistas (tal é o nome com que vulgarmente e com razão são chamados) com astuciosíssimo engano costumam apresentar a suas doutrinas não coordenadas e juntas como um todo, mas dispersas e como separadas umas das outras, a fim de serem tidos por duvidosos e incertos, ao passo que, de facto, estão firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Em Dia Mundial da Juventude.

Decorre Domingo, em Vila Franca do Campo, o encontro de Ilha do Dia Mundial da Juventude. Em ano paulino, aqui fica o nosso modesto contributo ao habitual Festival da Canção, interpretado pelos jovens do edílico lugar da Várzea:
"Para mim viver é Cristo,
Para mim viver é Cristo.
É Cristo. É Cristo.
É Cristo. Jesus Cristo é meu viver.

Num mundo que esquece Raízes antigas,
Num mundo que apaga Valores Eternos,
Eu creio em Cristo, eu amo a Verdade
E sou mensageiro da Eternidade.

Entre gente frágil com medo da fé,
Entre falsas fés com vergonha de si,
Eu vou anunciar a Salvação,
Eu quero gritar: eu sou Cristão!

Tanta gente triste e o mundo com pressa,
Homens que sofrem e ninguém tem tempo,
Eu amo a Vida, em cada dia
Cristo em mim vive: eu levo a alegria."

sexta-feira, 20 de março de 2009

O futuro da Igreja: no meio está a virtude.

A Igreja tem promessas de eternidade, dadas pelo próprio Cristo, o qual prometeu a sua existência até ao fim dos tempos. Enganam-se por isso aqueles que vêem o seu fim na crise em que a Igreja foi mergulhando desde há algumas décadas e que só agora, para os mais atentos, começa a dar sinais de voltar ao rumo. Aliás, pela primeira vez, em muitos anos, os católicos aumentaram no mundo, passando, em 2007, a 1 bilião e 147 milhões aproximadamente, sendo, em 2006, 1 bilião e 131 milhões. E é de registar o aumento sobretudo na Europa, ainda que na ordem dos 0,8%. Do mesmo modo, o número de sacerdotes começa a aumentar, tendo passado de 405.000 para 408.000, no ano de 2007.
Mas além destes, a Igreja tem dispersas algumas comunidades que, opondo-se aos excessos do Concílio, perderam a plena comunhão. A maior delas é a Fraternidade de São Pio X, a qual tem actualmente 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis, estando em franco crescimento, sobretudo no centro da Europa.
O Papa, convencido de que a Igreja existe para converter o mundo e não para se tornar igual a ele (aquilo a que gostam de chamar os tempos de hoje), querendo voltar a unir os mais sensíveis à Tradição com a "grande Igreja", pediu aos bispos do mundo inteiro a sua colaboração na resolução deste problema, através da Congregação para a Doutrina da Fé. Esta é uma das novidades da carta que o Papa lhes dirigiu, explicando como vai enfrentar a possível integração dos lefrebvristas na plena comunhão da Igreja, e que comportará, em último termo, uma reflexão conjunta sobre o Concílio Vaticano II.
Certamente o ponto de equilíbrio entre a sã Tradição, que certos sectores ousam despresar, e a nova linguagem do Concílio, que os tradicionalistas ainda não conseguiram abraçar.
«Desta meditação todos devemos tirar um novo e eficaz convencimento da necessidade de ampliar e aumentar essa fidelidade, rejeitando totalmente interpretações erróneas e aplicações arbitrárias e abusivas em matéria doutrinal, litúrgica e disciplinar», diz claramente o Santo Padre, anunciando assim o fim do regabofe que resulta de cada um dizer o que bem lhe apetece, achando-se sempre o novo messias e o verdadeiro salvador do mundo, ele, muitas vezes o padre, acima de séculos de história, de milhares de estudos, de milhões de almas crentes de tantos e tantos anos, ele, normalmente um cavalheiro de medíocres notas no Seminário, fracos dotes oratórios e escassa bagagem cultural, ele, chegou agora e só ele sabe, só ele é a verdade...
Já João Paulo II pediu aos teólogos e especialistas «um novo empenho de aprofundamento, no qual se esclareça plenamente a continuidade do Concílio com a Tradição, sobretudo nos pontos doutrinais que, talvez pela sua novidade, ainda não foram bem compreendidos por alguns sectores da Igreja».
Bento XVI deixou mesmo o desafio: «Para alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio, deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore.»
A Fraternidade de São Pio X já veio dizer, pela voz de Bernard Fellay, o seu Superior, que "longe de querer parar a Tradição em 1962, nós desejamos considerar o Concílio Vaticano II e o ensino pós-conciliar à luz desta Tradição que São Vicente de Lérins definiu como “o que foi querido sempre, por toda a parte e por todos” (Commonitorium), sem ruptura e num desenvolvimento perfeitamente homogêneo. É assim que nós poderemos contribuir eficazmente à evangelização pedida pelo Salvador. (cf. Mateus 28,19-20)" assegurando a sua vontade de abordar as questões doutrinais reconhecidas como “necessárias” pelo Decreto de 21 de Janeiro, "com o desejo de servir à Verdade revelada que é a primeira caridade a manifestar a respeito de todos os homens, cristãos ou não. Colocamos estas questões doutrinais sob a proteção de Nossa Senhora de Toda Confiança, com segurança de que ela nos obterá a graça de transmitir fielmente o que recebemos, “tradidi quod et accepi” (I Cor. 15,3)."
Resolvendo assim a desunião da Igreja, o Santo Padre, sabiamente, recoloca-a no ponto de equilíbrio que falta ao mundo. Novelas toda a gente tem em casa. O homem, sobretudo o dos tempos modernos, precisa de encontrar na Fé Algo muito acima.
E aí a missão é doutrinar e não a constante perda de tempo a questionar tudo, dando implícita razão aos adversários da doutrina. Como ensinou Santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja, Roma locuta, causa finita, ou, em vernáculo, o mesmo é dizer, Roma falou, encerrada a questão.
Se cada um se limitasse a, pelo menos, fazer bem a pequena parte que lhe está atribuída, quanto mais longe não iríamos!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Gregório I

Já lá vão 1405 anos que, no dia de hoje, mas no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 604, falecia em Roma, sua cidade natal, e da qual chegou a ser Prefeito antes de abraçar a vida eclesiástica, o Papa Gregório I, justamente chamado pelo povo de "o Magno", pela obra que deixou.
A ele se deve a conversão das Ilhas Britânicas ao cristianismo, tendo para lá enviado um grupo de quarenta monges beneditinos; do mesmo modo que o seu nome ficou associado à sempre eterna música cuja divulgação promoveu, o canto gregoriano, disciplinando assim a liturgia; além de ter deixado extensa obra escrita.
Três preocupações que, passado quase um milénio e meio, parecem ter voltado ao Papado: a conversão da Europa, o lugar próprio da liturgia e a profundidade científica de que a Fé não se pode alhear.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O Sagrado Lausperene.

Lausperene significa louvor perene ou eterno. É tradição bem própria da Quaresma, nestas nossas Ilhas, a Exposição Solene do Santíssimo Sacramento, no trono da Capela Mor, ornamentando-se a preceito a Igreja, com as flores próprias da época e as luzes cintilantes de lamparinas e velas ferforosamente a arder.
O Lausperene teria originariamente a duração de 40 horas, em memória do período que o corpo de Jesus passou no túmulo até à Ressurreição.
Em Lisboa, o Santíssimo Sacramento está exposto à adoração dos fieis desde 1556, por instituição do arcebispo de Lisboa, D. Luís de Sousa, ininterruptamente, percorrendo, por escala, as diversas igrejas da cidade, durante 48 horas.
Por cá a tradição cingia-se a uma noite, ou, em alguns casos, às 24 horas do dia. Mesmo assim, foi caindo em desuso. Felizmente, hoje, começa a recuperar-se, percebendo-se o brilho e a solenidade a que deve estar associada a Exposição do Santíssimo Sacramento. Assim é que, ao fim de décadas, e com o empenho do seu novo Prior, Domingo, na Matriz do Arcanjo desta Ilha, o Sagrado Lausperene está de regresso.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Excomunhão e Tolerância.

Um excelente artigo do Professor universitário João César das Neves, publicado no Diário de Notícias:
"Um bispo britânico, a quem o Vaticano levantou a excomunhão a 21 de Janeiro, negou publicamente a existência do Holocausto nazi. Isso gerou um coro de protestos contra não o prelado Richard Williamson mas contra o Papa Bento XVI. Até responsáveis como Angela Merkel (3 Fev.) e Mário Soares (DN, 3 Fev.) quiseram censurar. Podemos fazer um exercício curioso analisando esses ataques à luz dos próprios princípios dos críticos. A primeira coisa que salta à vista é a ligeireza. Os que contestam a decisão papal não sabem nada sobre ela. Ignoram o problema, desconhecem o bispo em causa, nem sequer ouviram o que ele disse. Limitam-se a reagir a títulos sensacionalistas e provocadores, que só pretendem agitar as religiões. Assemelham o caso ao genial discurso de Bento XVI na universidade de Ratisbona a 12 de Setembro de 2006, que por acaso também não leram. Se tivessem procurado compreender a circunstância, veriam que ela confirma precisamente os valores que dizem defender e contraria as críticas que se habituaram a dirigir à Igreja. O castigo agora levantado fora imposto automaticamente quando o arcebispo (que Soares graduou em cardeal) tradicionalista Marcel Lefebvre (1905- -1991) ordenou sem autorização quatro bispos a 30 de Junho de 1988. Este foi o cisma que feriu o nosso tempo, e que a Igreja Católica procura sarar há 20 anos. Os papas, como o pai do filho pródigo, têm feito sempre assim em todos os cismas. Agora, após longas e delicadas negociações, respondendo aos pedidos dos mesmos quatro bispos, a excomunhão latae sententiae foi-lhes levantada. Os prelados continuam sem funções canónicas e a sua Fraternidade S. Pio X não tem reconhecimento oficial. Mas foi um avanço importante na via do diálogo. Os políticos, que enchem a boca com tolerância, deviam admirar este difícil e complexo processo. Tanto mais delicado quanto o levantamento do castigo está a ser fortemente contestado pelos integristas radicais, que consideram Roma apóstata, modernista e cismática. Todos os valores da reconciliação, moderação e diálogo estão do lado do Papa, que acaba atacado por isto mesmo pelos autodenominados campeões da liberdade.O segundo aspecto curioso é o tabu. Num mundo que gosta de se anunciar sem preconceitos e repudia a censura, existe um bloqueio drástico sobre o Holocausto. Comentar o horror nazi não pode ser feito fora da versão oficial. São admitidas todas as opiniões, menos essa. O pior é a forma inquisitorial, fanática e abespinhada com que o assunto é enfrentado. Quem nega as câmaras de gás deveria ser tratado com um sorriso pela ignorância e uma gargalhada pela tolice. Hoje o disparate é tanto que não merece mais. Em vez disso todos estes democratas e republicanos, supostamente tolerantes, condenam da forma mais persecutória o Papa por ele terminado o castigo canónico. Parece que Williamson devia ser excomungado de novo, agora não por insubordinação mas por opinião histórica. E Bento XVI também, mesmo não concordando com ele. Os judeus, para quem a questão da shoah não é retórica mas pungente, têm razões legítimas para ficar ofendidos com as declarações do negacionista. Mas eles sabem bem qual a posição do Vaticano sobre esse horror, sucessivamente afirmada e de novo repetida desta vez. Podem criticar Williamson. Não o Papa.A Igreja promove há décadas um intenso e proveitoso diálogo com as outras religiões, como procura reconciliar-se com todos os que ao longo dos séculos foram abandonando a comunhão católica. Os avanços no ecumenismo e relações inter-religiosas constituem aliás um dos maiores e decisivos êxitos da diplomacia e cooperação dos últimos cem anos. Se os políticos, de qualquer região ou orientação, compararem os seus esforços de negociação com os do Vaticano bem podem ficar espantados. Acima de tudo, este caso mostra que neste tempo mediático e superficial ainda há quem olhe ao fundo das coisas, quem considere o valor das pessoas, não dos boatos, quem defenda princípios elevados, não preconceitos apressados. Esse é Bento XVI."

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Europa em apoio ao Santo Padre.

Várias associações e publicações católicas de toda a Europa abriram um site para recolher assinaturas de apoio ao Sumo Pontífice, Bento XVI, pelo seu corajoso gesto de anular a excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade de São Pio X.
Desde segunda-feira passada, já foram conseguidas mais de 38.000 assinaturas.
"Somos homens e mulheres, envolvidos em todos os aspectos de nossa sociedade, que desejamos edificar, com Vossa Santidade, a Igreja de amanhã. Esta intenção passa, necessariamente, pela transmissão da fé às gerações futuras, pelo amor à liturgia católica e pela defesa da vida humana", escrevem os autores da carta.
Para entrar na lista, os interessados devem, apenas, juntar o seu nome, idade, País e número de filhos, sendo a mesma transmitida exclusivamente à Santa Sé.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Um sinal de abertura e de reencontro.

O Papa Bento XVI decidiu anular a excomunhão decretada em 1988 por João Paulo II contra os bispos do movimento católico, defensor da tradição, fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre.
Anular a excomunhão constitui um passo importante para a reconciliação com a Fraternidade, que tem 460 padres espalhados por quase 50 países e tem a sua maior comunidade na América Latina, em particular na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e República Dominicana.
Desde o início de seu pontificado em 2005, Bento XVI fez vários gestos de abertura em direcção ao movimento católico fundado pelo arcebispo francês, entre eles a introdução em Julho de 2007 da missa em latim, uma exigência dos 'lefebvristas'.
Em Junho do ano passado, o Vaticano abriu mão de exigir à Fraternidade de São Pio X, fundada em 1969 em Econe (Suíça), pelo monsenhor Lefebvre, o reconhecimento dos novos ritos dispostos pelo Concílio Vaticano II, celebrado entre 1962 e 1965 e que alterou a imagem exterior da Igreja.
A Fraternidade de São Pio X, pela voz de Fellay, prometeu respeitar "o primado do Papa" e aceitar os ensinos da Igreja "com espírito filial", ou seja, deixando de qualificar de heréticas algumas disposições vaticanas.
A Fraternidade de São Pio X expressou, ainda, a sua “gratidão filial” ao Santo Padre, afirmando o seu desejo de «poder ajudar sempre mais o Papa a pôr remédio nesta crise sem precedentes que comove actualmente o mundo católico, a que o Papa João Paulo II havia designado como um estado de “apostasia silenciosa”».
De facto, antes de tantos outros que connosco têm diferenças tão abissais, o reencontro tinha de ser feito com aqueles que mais não fazem do que defender a mesma Igreja que perdurou militantemente durante séculos. Quem somos nós que, em nome da abertura, esvaziamos as Igrejas pela banalização do Sagrado, para impor limites a quem duvida do mérito de construir a Liturgia à medida do logo ali, como se Deus não fosse bem mais grandioso do que a nossa insolente apetência ao tu cá, tu lá? Quanto maior não é o esplendor que, ao Criador, é devido? Ainda que um Deus próximo! Quanto mais próximo, mais devido e merecido é o respeito do homem, criado à imagem e semelhança de Deus, não igual a Deus. A ânsia das igualdades destruiu o sentido da humildade, esta sim bem mais difícil.
Que o reencontro ajude a reencontrarmo-nos connosco próprios.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Em Ano Paulino.

DECRETO PER LE CELEBRAZIONI LITURGICHE DEL 25 GENNAIO nella solennità della Conversione di San Paolo Apostolo. La Congregazione per il Culto Divino e la disciplina dei Sacramenti, ha concesso per decreto “una speciale facoltà per la celebrazione liturgica della Conversione di San Paolo apostolo nell’anno giubilare, bimillenario della nascita”, in quanto il prossimo 25 gennaio coincide con la terza Domenica “per annum”. La Congregazione ha disposto cioè che nelle singole chiese, “per speciale mandato del Sommo Pontefice”, si possa celebrare una Messa secondo il formulario Conversione di San Paolo apostolo come si trova nel Messale Romano. In tal caso, la seconda lettura della messa si desume dal Lezionario Romano per la III Domenica “per annum” e si recita il Credo.
Nel motivare questa concessione, valevole soltanto per l’anno 2009, il decreto ricorda che “l’apostolo San Paolo fu annunciatore della verità di Cristo al mondo intero”; che “dopo esserne stato persecutore, si adoperò con ogni mezzo per annunciare alle genti la Buona Novella, impegnandosi con zelo per l’unità e la concordia di tutti i cristiani” e che “è stato da sempre ed è tuttora venerato dai fedeli, specialmente in questo particolare anno, bimillenario della sua nascita, che il Sommo Pontefice Benedetto XVI ha voluto istituire come speciale anno giubilare”.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Missa em Latim regressa a Lisboa

Na monumental Basílica dos Mártires, na cosmopolita Rua Garret, em pleno Chiado, às 10.30 da manhã de Domingo, desde o mês de Outubro, é posta à disposição dos cristãos a possibilidade de participarem na Missa com a solenidade da secular lingua oficial da Igreja. Entretanto, prepara-se uma Escola de Canto Gregoriano para dignificar esta Missa, a Schola Cantorum Olisiponensis.
A Igreja tem como Prior o dinâmico Cónego Armando Duarte e a Missa é celebrada pelo Padre Doutor Armindo Borges, um ilustre Nordestense doutorado em Música em Roma.