segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O dobrar dos sinos

Na sua linguagem ancestral, uma das mais belas cadências dos sinos é o seu toque de dobre, o qual, em terra lusitana, do alto das torres das catedrais ou do cimo dos campanários de recônditas aldeias, é o toque de Finados: o choro dos sinos por aqueles que partiram desta vida.
É extraordinário como, do mesmo instrumento e do conjunto dos mesmos timbres e tons, tanto se enche o som da mais profunda tristeza, como, em dia de repique, se anuncia alegria, vida e Ressurreição. Apenas pela diferença de ritmo ou, talvez mais importante, pela diferente simbologia com que cada toque envolve o nosso espírito, que os tem imbuídos na nossa própria identidade.
Assim é por estes dias... Após festejarmos os Santos com indubitável alegria, lembramos os nossos que partiram, que nos transmitiram o que somos e O que cremos, pedindo por eles e para que possam estar em situação próxima dos festejados.
Há quem fuja de tristezas. Mas, quase por azar, vão-lhes, mesmo assim, bater à porta.
Há quem encare a vida com alegria. Destes, são as tristezas que, naturalmente, lhes fogem, porque em tudo o que lhes chega conseguem descobrir ponta de alegria e de esperança.
Ora, para quem se enquadra nestes últimos, quão grande é a beleza desse encontro entre os que estão e os que partiram: cadenciado pela gravidade dos sinos que choram sem silêncio; decorado pelo pesado preto que não precisa de cor para se impor aos olhos cansados de banalidades; interiorizado no íntimo das almas que conseguem admitir em si a pequenez humana com que duvidam do Divino; amarrado a notas largas que timbram vozes suplicantes em ardente Requiem: Libera me Domine de morte aeterna... De uma alegria melancólica. É certo. Daquela alegria que quase perfura a alma, que derrama saudade, mas que assenta na Fé.
Outros preferem esconder-se da realidade da Vida. E, quanto mais se escondem, menos descobrem a Alegria...
E há espaço e tempo para tudo.
Tempo até para as importações de costumes ingleses, que por terem origem medieval e fazerem o contentamento da criançada, vieram para ficar e mal também não trazem.
Tempo para a glorificação dos Santos, tão esquecidos pela religiosidade contemporânea, numa busca quase fanática pelo “essencial”, conceito cada vez mais próximo do vazio absoluto!
Tempo para a visita aos restos mortais daqueles que fazem parte dessa secular cadeia dos que nos passaram o sopro da vida, ou aos de parentes e amigos, aos de gente por quem um dia choramos…
Assim também o fazemos em dia de Todos os Santos. Ao amanhecer, Ponta Garça. Próximo da Solene Missa do Meio-Dia, Vila Franca, com os sentidos acordes da Banda Lealdade que ali pisa em homenagem aquele chão sagrado. No regresso, já em dia de finados, Ponta Delgada. Em todos são deixadas à terra da sepultura as singelas flores nascidas na terra da mesma casa que a muitos deles – avós e tios - deu habitação nessa outra vida que um dia findou… Esperando que também assim, em pétalas de saudade, possamos merecer recordação e oração dos que ficam, quando chegar a hora de mudarmos de terra e nos reencontramos nessa Terra Eterna a que chamamos Céu.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Capela do Coro Alto da Matriz de Ponta Delgada

A Matriz de Ponta Delgada tem no seu património uma prestigiada tradição coral, em cinco séculos de vida musical dirigida ao louvor do Criador.
A sua Capela que, do velho Coro Alto, tantas Missas cantou, além da importante missão de solenizar as grandes festividades da Igreja Matriz, com a mais erudita música sacra que compõe o rico património histórico e espiritual da Santa Igreja, esteve sempre presente nos momentos de júbilo mais marcantes desta Ilha, nos quais lhe cabia a execução de Solene Te Deum.
Na sua regência e no órgão, como mestres de capela e como organistas, sempre estiveram vultos conceituados na música, mormente na música sacra.
É a segunda Capela mais antiga da Ilha, após a da Matriz de Vila Franca do Campo, tendo sido seu primeiro Mestre de Capela, no início do século XVI, de acordo com Gaspar Frutuoso, Sebastião Ferreira, pago pelo Rei, tendo esta Capela tanta fama que podia comparar-se a qualquer outra “Sé de grossíssima renda”.
Nota curiosa é dada pela Prof.ª Susana Costa, no seu trabalho Da Eternidade à Historicidade: em 1786, o capitão Francisco Machado de Faria tem problemas em fazer cumprir um vínculo instituído por José Tavares, pois o Mestre de Capela da Matriz de Ponta Delgada recusava-se a cantar as três missas de Natal e a novena pelo preço deixado pelo testador, no valor de 2 700 réis, alegando em carta apresentada ao Provedor: “O meu trabalho, ninguém o pode taxar; a quantia de 2700 não é suficiente para eu satisfazer, aos meus Músicos, nove Missas cantadas em madrugadas de Inverno” pedindo assim que fosse aumentado o estipêndio ou reduzido o número de Missas…
Mas é do século XIX que temos notícia do seu máximo expoente: o Padre Joaquim Silvestre Serrão, organista e compositor sacro, que marcou o seu tempo de tal forma que ainda hoje é bem viva a marca da sua Escola. Tanto assim que os Hinos conhecidos desta Ilha são na sua maioria de alunos seus e têm sempre o toque da sua escola: a divisão em três partes – andante, “dedilhado” e marcial.
Joaquim Silvestre Serrão deixou uma vasta obra musical, que inclui matinas e ofícios completos para as cerimónias da Semana Santa e responsórios vários, entre os quais um dedicado a São Sebastião, o padroeiro, além de Hinos como o da Senhora da Conceição e o do Menino Jesus. Normalmente a autoria dos seus Hinos vem por tradição oral, pois que não vêm assinados.
Francisco de Lacerda considerou-o um verdadeiro talento musical, destacando a qualidade das suas Matinas da Semana Santa.
O Padre Serrão foi também um notável organeiro. Em colaboração com João Nicolau Ferreira, reparou e construiu um número significativo de órgãos das várias ilhas. Esteve ao serviço da Matriz de 1841 a 1877.
Veio para Ponta Delgada a convite do seu grande amigo D. Frei Estêvão de Jesus Maria, notável Bispo que entrou na diocese de Angra em 1840, tendo permanecido em Ponta Delgada por 19 anos, até que assentasse a poeira liberal na velha sede do bispado. Essas décadas de quarenta e de cinquenta, nesta cidade, ficaram assim marcadas por grandiosos pontificais que em muito se deveram à solenidade do Prelado e à mestria do distinto músico.
Foi posteriormente Mestre de Capela da Matriz o seu aluno Jacinto Inácio Cabral, nascido por volta de 1812, autor do Hino do Espírito Santo, e de muitas outras composições, como o Hino da Banda Velha de Rabo de Peixe, estreado na Festa de 1868, ou o Hino de N.ª Senhora da Luz, estreado na Festa dos Fenais, em 1889.
Já no século XX, dirigiu a Capela Manuel Maria de Melo, sendo seu maestro em 17 de Fevereiro de 1952, nas Solenes Cerimónias do Centenário do Liceu Nacional, do qual era também professor de Canto Coral, e de quem se conhece a composição de uma Missa, de um Te Deum e da obra Contemplação. Também sob a sua Regência foi cantada por esta Capela a inauguração da Ermida de Nossa Sr.ª de Fátima no Livramento, a 13 de Maio de 1956.
Sucedeu-lhe Norberto Juvenal Pimentel da Costa, já barítono do Coro no tempo de Manuel Maria de Melo e, posteriormente, Luís Teves, também compositor e que ainda colabora com a Capela do Coro Alto.
Após a vinda do Monsenhor José Ribeiro Martins para a Matriz, em 1977, foi Mestre de Capela o Doutor José Carlos Rodrigues, precursor na Ilha da nova escola interpretativa trazida de Roma, para o Seminário, pelo Pe. José Silveira de Ávila, nos anos vinte, e aprofundada pelo Dr. Edmundo Machado de Oliveira, nos anos cinquenta, de quem foi aluno.
Entretanto, de acordo com o então dominante conceito generalista do chamado “espírito do concílio”, interrompeu-se a tradição coral sacra desta Capela, tendo então o seu maestro fundado, com outros antigos colegas de Seminário, o Orfeão Edmundo Machado de Oliveira, dedicado também ao tesouro artístico musical da Igreja.
Como na maior parte das Igrejas do País, passou a existir então um Grupo Coral, com cânticos mais acessíveis à aparente participação do Povo...
O Grupo Coral ficou desde o início a cargo do então jovem maestro Francisco José do Rego Botelho, o qual, nestas três décadas, foi solenizando o repertório do Coro, também graças às diversas acções de formação em que foi participando, tendo completado o curso de director de coro da Escola de Música Sacra do Centro Nacional de Pastoral Litúrgica, e graças a um reposicionamento que lentamente a Igreja portuguesa tem vindo a fazer mais solidificado na letra dos reais e oficiais documentos do Concílio e menos no tão virtual conceito de “espírito do concílio”.
O Coro Litúrgico anima habitualmente a Missa Paroquial do Meio-Dia.
A 7 de Outubro de 2007, dia de Nª Sr.ª do Rosário, visando solenizar a Missa Dominical das Cinco horas, na Igreja Mãe de Ponta Delgada, a qual é participada por muitos fiéis de visita à cidade, foi criado um pequeno Coro, em forma de Capela, cantando no Coro Alto, acompanhado dominicalmente pelo Órgão de Tubos e violino, nesse emblemático espaço litúrgico, onde, durante séculos, floresceu a melhor tradição coral da cidade e da Ilha.
É seu Mestre de Capela Paulo Domingos Alves de Albergaria Botelho de Gusmão, Advogado, cantor e organista nesta Igreja desde 1987, então com 12 anos.
É Organista nas Festas a Titular da Matriz, Dr.ª Ana Paula Andrade Constância, distinta Professora e Directora do Conservatório Regional de Ponta Delgada, e, dominicalmente, o dedicado jovem Frederico Costa, aluno de Órgão da Profª Cristiana Spadaro. É violinista João Costa, artista de talento e promissor músico.
A Capela do Coro Alto da Matriz de Ponta Delgada é composta por vinte elementos, a maior parte com formação musical, os quais, empenhadamente, procuram contribuir para a solenidade, brilho e espiritualidade na liturgia.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A Música na Liturgia

112. “A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte…”
116. “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar”.
118. “Promova-se muito o canto popular religioso…”
36. “Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos…poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo … em algumas orações e cantos…”
In Constituição A Sagrada Liturgia

Ou, no saber de Joseph Ratzinger: “Gandhi evidencia três espaços de vida do Cosmo e mostra como cada um destes três espaços vitais comunica também um modo próprio de ser. No mar vivem os peixes e silenciam. Os animais sobre a terra gritam, mas os pássaros, cujo espaço vital é o céu, cantam. Do mar é próprio o silenciar, da terra o gritar e do céu o cantar. O homem, porém, participa de todos os três: ele carrega em si a profundidade do mar, o peso da terra e a altura do céu; por isto são suas as três propriedades: o silenciar, o gritar e o cantar. Hoje (...) vemos que ao homem privado de transcendência permanece somente o gritar, porque deseja ser somente terra e procura transformar também o céu e a profundidade do mar em sua terra. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos, devolve-lhe a sua totalidade. Ensina-lhe novamente o silenciar e o cantar, abrindo-lhe a profundidade do mar e ensinando-o a voar, o ser do anjo; elevando o seu coração, faz ressoar de novo nele aquele canto que se havia adormecido. Ou ainda, podemos dizer que a verdadeira liturgia se reconhece exactamente no facto de que esta nos liberta do agir comum e nos restitui a profundidade e a altura, o silêncio e o canto. A verdadeira liturgia reconhece-se no facto de ser cósmica, e não sob a medida de um grupo. Ela canta com os anjos. Ela silencia com a profundidade do universo à espera. E assim ela redime a terra”.
In Cantate al Signore un Canto Nuovo, pp. 153-154

Eis em breves linhas as principais determinações para o papel da Música na Liturgia e o seu sentido último aqui metaforicamente descrito pelo actual Pontífice Reinante, Bento XVI.

Os Coros e Capelas têm assim a dificílima tarefa de ajudar os fiéis a participar espiritualmente no Sacrifício Eucarístico, o que exige elevação, missão bem mais profunda e trabalhosa do que pôr a Assembleia meramente em acção, a como infelizmente nos acomodamos em muitas das nossas comunidades.
Infelizmente, ou por muitos dos responsáveis eclesiásticos não serem gente da Música ou da arte, ou por muitos dos responsáveis da Música e da arte na Igreja não serem gente crescida na liturgia, só agora, com o refrescar da memória do verdadeiro conteúdo dos documentos conciliares, com a subida ao trono pontifical do grande teólogo citado, com o esforço incansável, persistente e decido do Santo Padre, passados quarenta anos, se começa a perceber o erro de algumas das ligeirezas que nos foram ensinadas por responsáveis da própria Igreja, às gerações mais novas, muito próprias dos devaneios da época, certamente com a melhor das intenções, mas que afinal eram fruto de falta de estudo e má interpretação do próprio Concílio – “diz-se que agora é assim” - além de terem resultado no esvaziamento das Igrejas a que fomos assistindo nestes anos de “aproximação aos tempos de hoje”!
Claro que a verdadeira Música Sacra dá trabalho a ensaiar, a executar e, às vezes, até a fazer compreender e chegar ao seu fim último, que é a interiorização e a espiritualidade.
Claro que, à primeira vista, sobretudo nos meios mais periféricos que não são nem bucolicamente rurais, nem culturalmente urbanos, as pessoas, ao primeiro instinto, preferem coisas mais ligeiras, que lhes puxe ao sentimentalismo primário que está à flor da pele. Dá a mesma alegria de quem traz para casa sacos cheios de compras.
Nessa versão a Missa é festa, é folia, é palmas… rapidamente se transformando em biatisse e a pieguisse de muito calor entre os homens, mas de conteúdo muito frio entre os homens e o Sacrificado no Altar!
A Missa serve para fazer o Homem encontrar-se com Deus, interiorizar, participar da Sua paixão e morte, crendo na Sua Ressurreição.
Aliás, só esse é o sentido do apelo à participação do Concílio Vaticano II, conforme o Magistério da Igreja, muitas vezes confundido com o perturbador activismo dos leigos na liturgia.
A Missa será assim Ritual? Claro!
Mas vamos ficar presos a fórmulas? Não devemos inovar e adaptar? Devemos, quem? Quem é um para se achar superior a quantas gerações nos legaram a Tradição ou aos tantos que estudam a Liturgia com profundidade ou a vivem com tão maior espiritualidade?
A Missa só é Solene se for Ritual: com a sacralidade que cada palavra transporta, na oração ou no canto!
Aliás, a discussão sobre o tema é quase inócua. Só há uma forma de o fazer: mostrando na prática quão mais rica é a liturgia quando envolta na arte da música sacra trabalhada sobre a intemporalidade do latim.
Hoje, que a maior parte dos que gritavam por simplismo e banalidade abandonou a Igreja à medida que o foi conseguindo, restando já apenas alguns saudosistas das velharias ideológicas dos anos sessenta, o tempo para os cristãos é de amadurecermos e entendermos a riqueza da Liturgia, de alma e coração, convictamente, aprofundando o trabalho litúrgico que a Igreja nos tem desafiado a fazer, percorrendo na celebração da Fé o caminho que distingue a nossa pequenez e miséria da grandeza e do esplendor de Deus.
Só é digno de Deus o melhor que cada Homem consegue.
Desde logo o Canto e a Liturgia.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Ao Bom Jesus da Pedra.

No último fim-de-semana de Agosto, Vila Franca do Campo volta a ser a Capital. De toda a Ilha acorrem milhares de peregrinos e forasteiros para a maior festa religiosa que ocorre durante o Verão nesta Ilha do Arcanjo.
Sentado numa pedra, numa das Suas mais trágicas horas, escarnecido pelos homens como pretenso rei dos Judeus, Jesus Cristo é festejado pela Igreja como verdadeiro Rei do Universo.
No Sábado, pelas 21.30, a Mudança leva a Imagem da Igreja da Misericórdia para a mais antiga Matriz da Ilha, onde é acolhida no templo repleto de fiéis, com um grande Coro, constituído pelo Coro da Prioral Matriz do Archanjo São Miguel, pela Capela do Coro Alto da Matriz de Ponta Delgada, pelo Grupo Coral de Nossa Senhora da Piedade, e por muitos bons cantores da Ilha que, em jeito de homenagem ao próprio Senhor, juntam o seu canto, num total de mais de uma centena de vozes, acompanhados ao Órgão pela estimada e sempre prestável Mestre, Dr.ª Ana Paula Andrade Constância, e por uma pequena Orquestra de instrumentos de sopro da Banda Lealdade, todos entoando o emblemático Gloria do Padre Vivaldi.
No final da cerimónia, ao Coro trajado com a sobriedade do preto e do vermelho escuro da Paixão, juntam-se as milhares de vozes sentidas do povo que ali acorre, acompanhados, dentro do templo, pelas duas Bandas da Vila, a Lealdade e a União, ficando uma no Guarda-vento da Igreja, outra na Capela da Senhora da Soledade, e pelo centenário Órgão de Tubos, todos executando em conjunto o carismático Hino do Senhor da Pedra, cuja composição é de 1890, do então maestro da Banda Lealdade, Guilherme Cabral, com letra já dos anos 50 do século XX, do Dr. Armando Côrtes-Rodrigues.
No Domingo, a Missa de Festa é ao Meio-Dia, solenemente cantada do Coro Alto, já só com os cantores e músicos da terra, este ano num total de 65 vozes, estreando a Missa de Angelis, na versão polifónica que é actualmente cantada no Vaticano.
E, como manda a tradição, o almoço é para a Família. Para juntar primos de muitas idades, dispersos pela Ilha, que regressam nesse dia à sua Vila de tantas gerações passadas.
Às seis da tarde, como sempre, de há tantos anos, sai então em Procissão a Imagem do Senhor da Pedra, percorrendo as ruas da velha Capital, como naquela tarde de 26 de Agosto de 1956, em que passando a Veneranda Imagem ao canto da nossa Casa, no seu leito, vencido pela doença, partia nosso avô deste mundo. Em Casa um momento sempre lembrado em dia de Festa. Lembrando o nosso natural destino...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Em Festas de Ponta Garça - Ave Maria de Witt

Em terras de Ponta da Garça decorrem as Festas da Senhora da Piedade.
A Imagem, que o povo venera, sai à Rua após a Missa de Festa no 1º Domingo de Agosto, solenemente cantada pelo esmerado Coro de Ponta Garça.
E, no meio do tão vasto programa que acompanha estes dias de Festa, sobra tempo ao silêncio da contemplação da Senhora que carrega nos braços o seu Filho. No encerramento da Festa, em apoteose final, dia 8 de Agosto, às onze e meia, a Imagem sai ao adro, à veneração de milhares de fiéis, rasgando-se o silêncio da noite com a surdina de uma centena de vozes, entre cantores e amigos da terra e da arte dos sons, rezando, pelo canto, a serena Ave Maria de Fr. Witt.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sant'Anna dia 18 de Julho

Festas de Sant'Anna 2010

15 De Julho – Quinta-feira
20.30 – Tríduo com Missa cantada.

16 De Julho – Sexta-feira
20.30 – Tríduo com Missa cantada.
21.00 – Mudança das Imagens para as casas onde serão ornamentados os andores.
21.30 – Arraial.

17 De Julho – Sábado
18.30 - Confissões
20.00 – Regresso das Imagens à Ermida.
20.30 – Tríduo com Missa cantada.
21.00 – Homenagem a Sant’Ana pela Banda Lealdade.
Entrega das ofertas para arrematar.
21.30 – Arraial com Concerto pela Banda Lealdade, arrematações, bazar e barraquinha com petiscos, junto à Ermida de Sant’Anna.

18 de Julho – Domingo da Festa
11.30 – Procissão – Sai da Ermida, desce a Rua de Sant’Ana, pelos prédios, e sobe a Rua do Frias.
12.00 – Missa Solene, com pregação pelo Reverendo Pe. Dr. António Saldanha e Albuquerque, oficial da Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano.
19.00 – Arraial.

A Tradição de Sant'Anna

Dia 18 de Julho, Domingo anterior ao dia 26 de Julho, têm lugar as Festas em Honra da Senhora Sant’Anna. Recuperando tão antiga tradição da Paróquia, com alguns interregnos no século XX, os moradores das Ruas do Frias e de Sant’Ana promovem a festa de Verão da comunidade de São Sebastião.
A Ermida de Sant’Anna foi construída, pelo licenciado António Frias, no final do século XVI. Ao seu lado encontram-se as ruínas do antigo Recolhimento construído pouco tempo depois também por António Frias. Ali estiveram os frades agostinhos até à construção do Convento da Graça. Quando dali saíram, o Licenciado Frias e a sua mulher, padroeiros dos Conventos de Santo André e de São João, fundaram então o Recolhimento para os parentes mais pobres. A 10 de Agosto de 1624, Frias escreveu o respectivo regulamento e deixou parte dos seus rendimentos à Instituição, no seu testamento de 21 de Novembro desse ano.
António Frias vivia ao cimo da Rua que lhe tomou o nome, onde hoje está a estátua de José do Canto, construindo assim a Ermida ao lado da sua casa, sendo que nesse tempo não existia a actual Rua de Sant’Anna, aberta apenas após a extinção do Convento dos Jesuítas, nas respectivas terras.
Passados cem anos a Ermida estava decaída e necessitando de alfaias, conforme consta das visitas que lhe foram feitas. Restaurada então nos inícios de setecentos, e porque a Paróquia de São Sebastião estava com muita população, foram encetados esforços para a criação do Curato de Sant’Anna, o que veio a acontecer por Alvará Régio de 26 de Outubro de 1753, embora já tivesse Cura desde 1730.
As festas de Sant’Anna vêm assim de tempos imemoriais, com “uma linda procissão, com arraial e fogo preso, organizada pelos paroquianos da parte alta da cidade”, até à volta de 1910, conforme descreve o anuário Micaelense e apenas com a celebração da Missa Solene e arraial até 1989.
Festejado em Janeiro São Sebastião, o Santo Padroeiro da Matriz, chegados a Julho, os paroquianos subiam à chamada zona alta, ao início só com a Rua do Frias e a Ladeira de Sant’Ana e, já mais tarde, com a Rua de Sant’Anna, para as Festas em honra da Mãe da Mãe de Deus, venerada com grande devoção na sua Ermida.
Festejar Sant’Anna é celebrar o encontro entre Deus e os homens através daquela que gerou a Virgem Santíssima, escolhida para Mãe do próprio Deus, na ternura própria que recai do seu olhar de avó. As Festas são, por isso, um momento íntimo de encontro com Deus; uma demonstração pública da nossa identidade cristã; um espaço privilegiado para reunirmos as nossas famílias nestas Ruas da Cidade; um momento anual de encontro e partilha da nossa comunidade.
O Tríduo, com Missa Cantada, na Quinta, Sexta e Sábado, é o início e a preparação da Festa. Terminado o Tríduo de Sexta-feira, o andor com a Imagem de Sant’Ana com a Virgem Maria e o andor de S. Joaquim vão para as casas dos paroquianos que, esmeradamente, os ornamentam. No Sábado regressam à velha Capelinha do cimo da cidade, para o último tríduo.
Nas noites de Sexta, Sábado e Domingo têm lugar os serões à volta da Ermida, em jeito de arraial, com o típico bazar, a barraquinha dos petiscos, arrematações e os sempre apreciados acordes da Banda Lealdade.
No Domingo, o Dia da Festa, os sinos rasgam o silêncio da manhã, anunciando a saída solene da Senhora Sant’Anna com a Virgem ao colo e o andor de São Joaquim a acompanhá-las. Desce a Rua que tem o seu nome, por entre os prédios, e sobe a Rua do Frias, em sinal de caminhada para a Missa de Festa, centro da vida cristã.
A participação na Festa é a principal ajuda que cada um é convidado a dar, havendo depois muitas outras formas de colaborar: seja com flores; com prémios para o bazar ou para as tradicionais arrematações; ou, para aqueles que o desejam, com a colaboração para as despesas fazendo a sua oferta nos dias da Festa.
Repicam os sinos: cristãos engalanados, gente dessas ruas em volta, crianças tão contentes, vizinhos em festa, todos acorrem à Ermida, despertando, no silêncio da cidade que corre, o seu terno coração de aldeia…

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Convite

Convidam-se parentes e amigos à noite de São João, quarta-feira, 23 de Junho, à Casa de São Domingos, na velha Vila, à típica sardinha, temperada ao barril das Grotas Fundas, a partir das 19 horas e enquanto noite for...

A Noite de São João.

Vinte e três de Junho: a serena noite de São João!
A água corre da fresca fonte, enquanto as crianças saltam a fogueira que desfaz a escuridão. O cheiro é das sardinhas e os risos são de alegria porque a noite é de festa.
Na velha Casa de São Domingos, em Vila Franca, também se cumpre a tradição, festejando, com cor e alegria, São João, um dos três chamados de populares.
Entre o pôr-do-sol e a alvorada.
A entrada é pelo engalanado portão da antiga Rua do Senhor, aberto a todos, que a Menina Cristiana assim o manda.
E lá fora, na rua, Vila Franca volta a ser, por uma noite, o destino da Ilha.
A azáfama, noite dentro, de forasteiros dispersos; o riso de pipas já vazadas; o canto simples e popularucho de marchas alegres e ensaiadas a rigor; a euforia de repenicadas letras a martelo, cantadas com o afinco de gargantas tão festivas; a beleza da juventude engalanada com preciosas vestes, logo guardadas com o preceito que já nem os domingueiros fatos; barulho; tanta gente a passar; e um precioso silêncio por cima de tudo isto…
Um silêncio que admiro daquele feliz alpendre onde se cruzam o cheiro das sardinhas daquela nossa secular Rua, o toque solene do relógio da Câmara, o fogo-de-artifício quando o há e a saudade dessa noite. Onde se cruzam noites de tantos anos, amigos de tantas noites, e a lembrança dos que já por ali se cruzaram sem que o possam voltar a fazer.
E em Casa, do cimo do alpendre, o São João, em tão mimoso quadro, tão devotado como há anos, há décadas, dependurado naquelas paredes, engalanado a papel colorido, portão a dentro, o São João das fogueiras, das fontes, dos bailaricos e das sortes.
E a sorte é a cadência dos que vão entrando e ali passando, pois que melhor traria São João do que tão bons amigos e gente de sangue tão querida?
E quando tudo serena, do alto do campanário dos Paços do Concelho, o Hino é tocado em alegre outrora despertar, por músicos filarmónicos que assim devolvem a tradição a São João e alegram quantos se mantêm fiéis à Vila até ao dia do Santinho.