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segunda-feira, 20 de junho de 2011

São João da Vila

23 de Junho: a serena noite de São João!
Na velha Casa de São Domingos, em Vila Franca, também se cumpre a tradição, festejando, com cor e alegria, São João, um dos três chamados de populares.
Entre o pôr-do-sol e a alvorada.
A entrada é pelo engalanado portão da antiga Rua do Senhor, aberto a todos, que a Menina Cristiana assim o manda.
E lá fora, na rua, Vila Franca volta a ser, por uma noite, o destino da Ilha.
E a sorte é a cadência dos que vão entrando e ali passando, pois que melhor traria São João do que tão bons amigos e gente de sangue tão querida?
E quando tudo serena, do alto do campanário dos Paços do Concelho, o Hino é tocado em alegre outrora despertar, por músicos filarmónicos que assim devolvem a tradição a São João e alegram quantos se mantêm fiéis à Vila até ao dia do Santinho.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A Quaresma Micaelene

As cinzas que nos foram impostas simbolizam o dever da conversão, a mudança de vida, recordando a passageira, transitória e efémera fragilidade da vida humana, sujeita à morte. "Lembra-te ó homem que és pó e que em pó te hás-de tornar", como celestialmente as crianças enchem a Igreja com o canto feito para elas.
Assim se inicia a Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa, pois que os Domingos não são nela incluídos.
Pelas ruas, as romarias estão por toda a Ilha, timbrando, em toadas de Ave-Marias, adros e vielas. De cajado na mão, aí vão, percorrendo a Ilha do Arcanjo. Como sempre. Desde o tremendo terramoto de 1522, que nos levou a velha Capital e milhares das suas vidas. Para que tragédia assim não nos assole semelhante. Em cada fim-de-semana uns saem, outros regressam.
Os que ficam também oram. Porque de oração se faz a Quaresma. A mais Solene de todas é o Lausperene. Louvor eterno. É tradição bem antiga, nestas nossas Ilhas, a Exposição Solene do Santíssimo Sacramento no mais alto lugar do templo, no trono da Capela-Mor, o qual ficava tapado, com damasco, no resto do ano, só se abrindo nesta Festa, ornamentando-se a preceito a Igreja, com as aromáticas flores próprias da época e as luzes cintilantes de lamparinas e velas fervorosamente a arder.
Na cidade de Lisboa, o Santíssimo Sacramento está exposto à adoração dos fiéis desde 1556, por instituição do seu arcebispo, D. Luís de Sousa, ininterruptamente, percorrendo, por escala, as diversas igrejas da cidade, por quarenta e oito horas.
O Lausperene, originariamente com a duração de quarenta horas, em memória do período que o corpo de Jesus esperou no túmulo pela vitória sobre a morte, na nossa tradição cingia-se a uma noite, ou, em alguns casos, às vinte e quatro horas do dia.
Mesmo assim, foi o piedoso costume caindo em desuso. Felizmente, hoje, começa a recuperar-se, percebendo-se o brilho e a solenidade a que deve estar associada a Exposição do Santíssimo Sacramento.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Santa Luzia

"Em dia de Santa Luzia - minga a noite e cresce o dia." De devoção popular, intimamente ligada à aproximação do Natal, dia 13 de Dezembro, a Festa é da Protectora dos olhos.
Reza a história que, quando os guardas vieram buscar Luzia, o seu corpo tornou-se tão pesado que nem muitos homens conseguiram tirá-la do lugar. Foi então vítima de várias torturas, como o fogo que não lhe atingiu e o arranque dos seus olhos que, colocados numa bandeja, voltaram a aparecer, no seu rosto, intactos. Continuou a ser torturada, até que, no dia 13 de Dezembro, um golpe de espada lhe cortou a cabeça.
É orago de três freguesias nos Açores: uma no cimo da cidade de Angra, outra em São Roque do Pico, e outra em S. Miguel: as Feteiras. Foi esta elevada a priorado em 17 de Maio de 1832, com o nome de Priorado de Santa Luzia, com jurisdição sobre a Senhora das Neves da Relva, Senhora da Conceição da Candelária, São Sebastião dos Ginetes e Conceição dos Mosteiros (artº.1º,V).
Celebra a sua Padroeira com bonita Procissão e Eucaristia Solene, no Domingo mais próximo a 13 de Dezembro, cantada pelo Grupo Coral de Santa Luzia das Feteiras, de que tenho o gosto de ser Mestre de Capela neste dia do ano, desde 2005, tendo composto, para a Celebração, o cântico de entrada – Alegrem-se os Santos – e o Ofertório – Constante na Fé.
Festejos que foram revigorados com o dinamismo do Pe. Norberto Brum e do actual Prior, Pe. Maximínio Silva, o qual compôs o Hino da Padroeira.
Sempre um pitoresco passeio a abrir o Natal! Tempo de rever os cantores em mais um ano, gente boa e amiga. Tudo a tempo de chegar a casa e plantar o trigo e a ervilhaca que o dia é o próprio.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

São Martinho 2010

A chegada do Senhor de Mello, confrade estreante que muito enriqueceu a sessão anual, em substituição do Irmão Tibério Lopes, perdido nas acções de formação e extenuantes trabalhos que são apanágio da administração.
A aplaudida chegada do ilustre Provador de 2010, Pedro Lima de Araújo Pereira e sua Senhora, que muito honraram a Irmandade com a sua distinção e amizade.
A entrada solene dos confrades, entoando por nove vezes o Hino de São Martinho, aqui a passarem junto à Irmandade das Crianças.
Aberta a pipa, a Prova oficial do precioso nectar das areias de Ponta Garça.
A magnífica Oração de Sapiência do ilustre Provador.
O decorrer dos trabalhos.
Um ponto alto do debate: as muito oportunas interpelações à Mesa.
Um aspecto geral da velha adega: os confrades, as senhoras, as crianças e o povo presente.
O encerramento dos trabalhos, com a leitura do poema "A Minha Rua", escrito em 1951 por Armando Cortes-Rodrigues, em homenagem à carismática Rua do Frias. Tão distinto poeta e vizinho dedicou também a sua pena, em merecida ode, ao vinho das areias de Ponta Garça, considerado o melhor de toda a Ilha, o mesmo que é trazido anualmente para a adega das Casas do Frias e que este ano será para as tradicionais sopas do Espírito Santo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Irmandade de São Martinho

Nas Casas do Frias - Casa de São Gonçalo, comemora-se, na sexta-feira anterior ao 11 de Novembro, a noite de São Martinho.
Lá estarão os irmãos de São Martinho, rondando o número de nove, pois de nove se faz Novembro e em nove provas se abre o vinho.
Por isso, aos oito confrades permanentes e ao Provador, o convidado que lidera a nobreza da Prova, é de lembrar que, à velha adega, há que chegar a tempo de, ao toque sereno das nove badaladas, logo em ponto começar.
O Provador convidado do ano e de convite honrosamente aceite fará a prova oficial, a douta Oração de Sapiência e terá a rigorosa direcção dos trabalhos durante a noite de São Martinho, dando e tirando a palavra aos confrades, de modo a tudo decorrer na ordem e solenidade que são tradição e apanágio da Irmandade.
Um irmão traz, aos costumes da tradição, umas palavras para abrir a rodada que irá servir daquele puro vinho aromado das Grotas Fundas, um petisco para o acompanhar e a cantiga que entoará à despedida da sua ronda, passando a palavra ao de idade seguinte, e assim até que se concluam as nove voltas que à pipa se há-de dar em noite de São Martinho.
Na Capela, fica a imagem do popular soldado romano a partilhar a sua capa com um necessitado mendigo, num apelo actual ao nosso espírito de caridade.
À maioria dos confrades de São Martinho, uma vez que o confrade que exerce o cargo de Batoqueiro continua a celebração durante todo o ano, à despedida das comemorações, ficam os nove cravos que ornamentam a imagem, representando, em cada um, cada uma das nove famílias dos irmãos, a alegria da partilha e o valor da amizade.

Regimento da Veneranda Irmandade de São Martinho das Casas do Frias

1º É instituída a Irmandade de São Martinho das Casas do Frias.

2º A Irmandade é composta pelo Provador e por oito confrades permanentes: Paulo Domingos Alves de Albergaria Botelho de Gusmão, João Francisco de Sales Bento Sampaio, João Paulo Constância, Tibério Gil Lopes, Frederico André Cabral Sampaio, Cláudio Manuel Pacheco Medeiros, Edgardo Costa Madeira e Válter Manuel de Sousa Xavier.

3º O Provador é convidado anualmente pelo Guardião da Irmandade, podendo sê-lo também um dos confrades permanentes, quando especiais feitos entretanto realizados o justifiquem.

4º Ao Guardião da Irmandade, Senhor da Adega de São Martinho, cabe zelar pelo cumprimento da Tradição e do Regimento.

5º Ao confrade Cláudio é confiada a tarefa de Batoqueiro, responsável pelo Vinho; ao confrade Edgardo, a de Agitador, responsável pelos garrafões; e ao confrade Xavier, a de Cartoleiro, responsável pela pipa.

6º A Irmandade reúne anualmente, na sexta-feira anterior ao 11 de Novembro, dia de São Martinho, na Adega das Casas do Frias.

7º Os confrades reúnem-se à entrada da Casa às 20.30, vestindo as suas capas, recebendo o Provador à porta, escolhendo o seu copo e aguardando as nove badaladas do sino para se iniciar a cerimónia.

8º Às nove badaladas, os confrades saem em cortejo, entoando o Hino, de copo ainda vazio, por ordem decrescente de idades, com o Provador à frente, rumo à Adega, parando à porta da Capela, onde, homenageando São Martinho aí ornamentado, entoarão por nove vezes o seu Hino.

9º Chegados à Adega, estando todos de pé, cabe ao Provador abrir a Pipa e saborear o precioso néctar, servindo, após a Prova, todos os Confrades e povo presente.

10º Provada, por todos, a primeira das nove rodadas, o Provador mandará os confrades sentarem-se em volta da mesa e o povo presente em bancos corridos ao fundo da Adega.

11º Proferirá então o Provador a sua Oração de Sapiência, servindo aos confrades o petisco por si trazido e terminando com uma canção com que brindará os presentes.

12º Vazados todos os copos, proferirá então o Guardião da Irmandade a sua Intervenção, servindo aos confrades a segunda rodada e o petisco por si trazido, terminando com uma canção com que brindará os presentes.

13º Vazados todos os copos, proferirá então o confrade mais velho a sua Intervenção, servindo aos confrades a rodada seguinte e o petisco por si trazido, terminando com uma canção com que brindará os presentes e assim sucessivamente.

14º Terminadas as nove rodadas, será cantado o Hino por nove vezes, intercalando-se com vivas a S. Martinho, ao Vinho de Cheiro, à nossa Adega, ao Provador, aos Confrades, às Mulheres destes, aos seus Rapazes, à Amizade e à Tradição!

Casas do Frias – Adega de São Martinho, 6 de Novembro de 2009

Publique-se. O Guardião da Irmandade. Paulo Domingos Alves de Albergaria Botelho de Gusmão.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O dobrar dos sinos

Na sua linguagem ancestral, uma das mais belas cadências dos sinos é o seu toque de dobre, o qual, em terra lusitana, do alto das torres das catedrais ou do cimo dos campanários de recônditas aldeias, é o toque de Finados: o choro dos sinos por aqueles que partiram desta vida.
É extraordinário como, do mesmo instrumento e do conjunto dos mesmos timbres e tons, tanto se enche o som da mais profunda tristeza, como, em dia de repique, se anuncia alegria, vida e Ressurreição. Apenas pela diferença de ritmo ou, talvez mais importante, pela diferente simbologia com que cada toque envolve o nosso espírito, que os tem imbuídos na nossa própria identidade.
Assim é por estes dias... Após festejarmos os Santos com indubitável alegria, lembramos os nossos que partiram, que nos transmitiram o que somos e O que cremos, pedindo por eles e para que possam estar em situação próxima dos festejados.
Há quem fuja de tristezas. Mas, quase por azar, vão-lhes, mesmo assim, bater à porta.
Há quem encare a vida com alegria. Destes, são as tristezas que, naturalmente, lhes fogem, porque em tudo o que lhes chega conseguem descobrir ponta de alegria e de esperança.
Ora, para quem se enquadra nestes últimos, quão grande é a beleza desse encontro entre os que estão e os que partiram: cadenciado pela gravidade dos sinos que choram sem silêncio; decorado pelo pesado preto que não precisa de cor para se impor aos olhos cansados de banalidades; interiorizado no íntimo das almas que conseguem admitir em si a pequenez humana com que duvidam do Divino; amarrado a notas largas que timbram vozes suplicantes em ardente Requiem: Libera me Domine de morte aeterna... De uma alegria melancólica. É certo. Daquela alegria que quase perfura a alma, que derrama saudade, mas que assenta na Fé.
Outros preferem esconder-se da realidade da Vida. E, quanto mais se escondem, menos descobrem a Alegria...
E há espaço e tempo para tudo.
Tempo até para as importações de costumes ingleses, que por terem origem medieval e fazerem o contentamento da criançada, vieram para ficar e mal também não trazem.
Tempo para a glorificação dos Santos, tão esquecidos pela religiosidade contemporânea, numa busca quase fanática pelo “essencial”, conceito cada vez mais próximo do vazio absoluto!
Tempo para a visita aos restos mortais daqueles que fazem parte dessa secular cadeia dos que nos passaram o sopro da vida, ou aos de parentes e amigos, aos de gente por quem um dia choramos…
Assim também o fazemos em dia de Todos os Santos. Ao amanhecer, Ponta Garça. Próximo da Solene Missa do Meio-Dia, Vila Franca, com os sentidos acordes da Banda Lealdade que ali pisa em homenagem aquele chão sagrado. No regresso, já em dia de finados, Ponta Delgada. Em todos são deixadas à terra da sepultura as singelas flores nascidas na terra da mesma casa que a muitos deles – avós e tios - deu habitação nessa outra vida que um dia findou… Esperando que também assim, em pétalas de saudade, possamos merecer recordação e oração dos que ficam, quando chegar a hora de mudarmos de terra e nos reencontramos nessa Terra Eterna a que chamamos Céu.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Irró, ó meu Santo Irró.

É já Domingo, na velha Capital, a festa de São Pedro Gonçalves, chamada de festa do Irró, em alusão ao grito dos homens do mar a puxarem os seus barcos para terra, avenida acima, para serem devidamente ornamentados em homenagem ao Santinho.
Domingo, sai à Rua a Procissão, pelas 15.00, entrando na Igreja de São Miguel para a Missa de Festa, cantada pelo Coro da Prioral Matriz e celebrada pelo conterrâneo Padre Norberto Brum, prosseguindo, por entre magníficos tapetes, de regresso à hoje também sua Ermida que, santamente, divide com Santa Catarina, sua titular, desde que a sua centenária Capelinha, junto à Praia do Corpo Santo, a que deu o nome, foi ao chão, no início do século XX, com o peso do tempo.

Com velas de esperança,
A navegar,
O cais da vida
Buscamos sem cessar.

Ao Porto da Glória
E nas tempestades
Conduz os homens
São Pedro Gonçalves.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A Quaresma micaelense.

As cinzas, que nos foram impostas, simbolizam o dever da conversão, a mudança de vida, recordando a passageira, transitória e efémera fragilidade da vida humana, sujeita à morte. "Lembra-te ó homem que és pó e que em pó te hás-de tornar", como celestialmente as crianças enchem a Igreja com o canto feito para elas.
Assim se inicia a Quaresma, quarenta dias antes da Páscoa, pois que os Domingos não são nela incluídos.
Pelas ruas, as romarias estão por toda a Ilha, timbrando, em toadas de Ave-Marias, adros e vielas. De cajado na mão, aí vão, percorrendo a Ilha do Arcanjo. Como sempre. Desde o tremendo terramoto de 1522, que nos levou a velha Capital e milhares das suas vidas. Para que tragédia assim não nos assole semelhante. Em cada fim-de-semana uns saem, outros regressam.
Os que ficam também oram. Porque de oração se faz a Quaresma. A mais Solene de todas é o Lausperene. Louvor eterno. É tradição bem antiga, nestas nossas Ilhas, a Exposição Solene do Santíssimo Sacramento no mais alto lugar do templo, no trono da Capela-Mor, o qual ficava tapado, com damasco, no resto do ano, só se abrindo nesta Festa, ornamentando-se a preceito a Igreja, com as aromáticas flores próprias da época e as luzes cintilantes de lamparinas e velas fervorosamente a arder.
Na cidade de Lisboa, o Santíssimo Sacramento está exposto à adoração dos fiéis desde 1556, por instituição do seu arcebispo, D. Luís de Sousa, ininterruptamente, percorrendo, por escala, as diversas igrejas da cidade, por quarenta e oito horas.
O Lausperene, originariamente com a duração de quarenta horas, em memória do período que o corpo de Jesus esperou no túmulo pela vitória sobre a morte, na nossa tradição cingia-se a uma noite, ou, em alguns casos, às vinte e quatro horas do dia.
Mesmo assim, foi o piedoso costume caindo em desuso. Felizmente, hoje, começa a recuperar-se, percebendo-se o brilho e a solenidade a que deve estar associada a Exposição do Santíssimo Sacramento. Assim é que, ao fim de décadas, e com o empenho do seu novo Prior, ao II Domingo da Quaresma, na mais velha Matriz desta Ilha, o Sagrado Lausperene regressou.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Baile

Ao som de Strauss se abrem, à Meia-Noite, os velhos bailes de Carnaval. Daqueles que se propagavam nas velhas casas da cidade, antes que a aurora do século XX invadisse a tradição com o omnipresente toque do colectivo.
Melhor novidade trouxe ao Carnaval a complexidade das composições da nossa velha Terra de Vera Cruz, em que músicas cheias de ritmo, com alegres acordes, ainda que muitas vezes peculiarmente menores, dão vida a letras de vidas sofridas, em um dia no ano teoricamente aliviadas...
Mesmo assim, quão mais belo é o nosso Entrudo, ainda que ao som de samba, por não servir de fuga à vida, mas de sua parte feliz.
Ora também nas Casas do Frias, com traje de Gala ou Fantasia, é o Baile iniciado à Meia-Noite, antecedido de Ceia com as iguarias próprias, logo após o peculiar Bailinho, que, com a prestimosa ajuda das crianças, traz, em rima, à boca de cena, as verdades do ano de alguns convidados mais incautos, até que em Coro encerre:
“Nesta festa sem idade:
Carnaval são só três dias.
Com estas cores na Cidade,
Só na Rua do Frias.”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

As Festas do Patrono da Cidade.

Já diziam os antigos que Janeiro é mês santeiro. Dos mais populares desta quadra pós natalícia, São Gonçalo abre a época no dia 10, Santo Amaro e Santo Antão intermedeiam a 15 e a 17, e São Sebastião, o soldado romano invocado contra a peste, tal como aconteceu em Ponta Delgada, nos anos 1523 a 1531, em que a população formulou um voto de levantar um templo maior no local da pequena Ermida da então Vila, quando o flagelo acabasse, é festejado a 20 de Janeiro.
Terminada a peste, logo os habitantes de Ponta Delgada tomaram São Sebastião por seu padroeiro, iniciando a construção de uma Igreja maior.
Desde então, o Município encarregou-se de promover as festividades em honra do Patrono da Cidade, com Missa Solene, seguida de Procissão, onde se incorporavam as autoridades, a oficialidade, o senado, uma força militar e a respectiva Banda.
Por deliberação de 18 de Janeiro de 1578, pagava também a Câmara, das suas rendas, uma dança e folia na festa do excelso padroeiro, que grande era a devoção que lhe tinha este povo e a popularidade desta festa entre as gentes da cidade, que, logo na véspera do dia vinte, saiam à rua em descantes, cantando, ao som de violas e guitarras, as conhecidas sebastianas.
E rezam também as crónicas que na característica procissão da Cidade integravam-se 23 andores, fechando com o do Glorioso Mártir, profusamente ornamentado, em cujo andor, levado por quatro artilheiros, lá ia a mais bela e farta das laranjeiras da época, como hoje, na Capela Mor.
Percorria toda a cidade, em percurso semelhante ao do Senhor, sendo o venerando soldado efusivamente saudado, com vinte e um tiros de peça, ao passar no castelo de São Brás.
Mas veio a República e vieram as proibições de exteriorização de fé, para não ofender a minoria laica que entretanto foi crescendo como a erva à solta. E lá se foi a Tradição. Parte da tradição. A principal continua bem viva. No Domingo, dia 18, há Missa Solene, às 5 da tarde, na Igreja Matriz de Ponta Delgada, onde toma assento a Senhora Câmara, o Reverendo Clero e a cristandade micaelense da secular cidade.
Nas velhas casas, a fruta do dia, que outrora era dada aos amigos ou, por vezes, festivamente atirada, à saída da Igreja, a laranja, ornamenta o santinho e dá o requintado sabor ao bolo típico da festa que, no recato do lar, a tradição vive e tempera a vida e enche a alma, pois que o corpo, em dia de batalha, cá em casa se fica por umas boas tripas à moda do Porto...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010