quinta-feira, 30 de abril de 2009

De Regresso.

Embebido nas ruelas da imponente Cidade que serve de berço à nossa civilização e Capital do Império Cristão, da Roma Eterna agora chegado, volto à escrita deste modesto Jornal atordoado pela magnificência desse outro mundo. Ou melhor, do mundo!
Mas pergunto-me, como os gauleses, serão os romanos loucos? Conservam então tudo quanto têm com tal arte e beleza que nos oprime a vergonha de vivermos em cidadelas inundadas de contemporâneo! Numa cidade de tantos quilómetros porque cargas de água há-de ser tudo belo? Não têm lá também destes artistas de agora ou dos nossos arquitectos de toque actual? Para que querem eles pedras e pedrinhas com dois mil anos? Só para terem milhões de turistas e uma cidade magnífica? Nunca ouviram os nossos intelectuais políticos que sabem que o tempo não pára? O que vale mais: o vosso pedante bom gosto ou o nosso pindérico novo-riquismo? Fiquem lá com os turistas que nós ficamos com o cimento armado!
E os sinais cristãos? Julgam que por serem 60 milhões numa só cidade têm direito a ofender a cavalgada do laicismo que, furiosa, há anos que não sai dos subúrbios? Então milhares de padres envergarem batina com a mesma naturalidade com que também se passeiam pela histórica zona de esplanadas e tasquinhas, ofendendo assim a militante voz progressista do clero fundamentalista dos loucos anos 60 que tanto tem feito pela destruição da Igreja por estas paragens? E a foto do Papa em todo o lado, até em bares e restaurantes? Não sabem que a Odete Santos não gosta do Papa? Não lêem os jornais portugueses que são contra o Papa? Quem pensam os romanos que são para, sem o nosso consentimento, o venerarem a tal ponto?
E tudo é grandioso. Não sabem eles que a verdadeira arte e a cultura digna desse nome são obra do maligno e causa de todos os males? Porquê música quase divina, quando o homem deve chafurdar na guitarrada pimba que nos torna a todos desprezivelmente igualitários? Não sabem os romanos que a grandiosidade que apresentam ao mundo pode ofuscar a pequenez do azedume de quem nada sabe fazer e refugia-se nas virtudes do simplório?
Onde pensam os romanos que vão? Nem sequer são democráticos: entregaram a Câmara à Direita, ignorando todas as regras ditadas em Portugal, mais velha democracia do mundo, única em que à política e ao jornalismo só acedem pessoas de elevada educação e com provas dadas no mundo profissional e no saber.
Estranho Povo!
E por que raio têm um ar bem disposto?
Ainda bem que me vim embora. Não fosse algum dia dar-lhes razão!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Hino popular a Dom Nuno.

Herói e Santo,
Dom Nuno imortal,
Valei à terra de Portugal!

I
Dom Nuno Álvares Pereira
Nosso encanto e nossa glória,
Retomai vossa Bandeira
E levai-nos à vitória.

II
Em vosso peito de crente
E robusto lutador
Ardem continuamente
Chamas de fé e amor

III
Carmelita e Cavaleiro,
Abraçando a Cruz da Espada,
Mostraste ao mundo inteiro
O valor da Pátria Amada.

IV
Ébria de sonho e de aurosa,
Voss'alma fremente e bela,
Brilhou nas eras de outrora
Mais alto do que uma estrela.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Ao Beato Nuno de Santa Maria.

O túmulo de Nuno Álvares Pereira foi destruído no terramoto de 1755. O seu epitáfio era: "Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo."
Domingo, na Cidade Eterna, a Pátria engrandece-se. Como disse o Cardeal Patriarca, em Lisboa, o Beato Nuno é do melhor que Portugal teve na sua História: um Homem da causa pública e de fé.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

À Cidade Eterna.

Acabado de chegar ao centro da civilização, para o grande acontecimento do próximo Domingo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Carros Antigos

Para quem aprecia carros antigos, um bom sítio com sugestões de aquisição e instruções de restauro:



http://www.portalclassicos.com/forum/

terça-feira, 21 de abril de 2009

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca

segunda-feira, 20 de abril de 2009

São Pedro Gonçalves.

Com velas de esperança,
A navegar,
O cais da vida
Buscamos sem cessar.

Ao Porto da Glória
E nas tempestades
Conduz os homens
São Pedro Gonçalves.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Irró, ó meu Santo Irró.

É já Domingo, na velha Capital, a festa de São Pedro Gonçalves, chamada de festa do Irró, em alusão ao grito dos homens do mar a puxarem os seus barcos para terra, avenida acima, para serem devidamente ornamentados em homenagem ao Santinho.
Domingo, sai à Rua a Procissão, pelas 15.00, entrando na Igreja de São Miguel para a Missa de Festa, cantada pelo Coro da Prioral Matriz e celebrada por sua Excelência Reverendíssima o Senhor Dom António, Bispo de Angra, prosseguindo, por entre magníficos tapetes, de regresso à hoje também sua Ermida que, santamente, divide com Santa Catarina, sua titular, desde que a sua centenária Capelinha, junto à Praia do Corpo Santo, a que deu o nome, foi ao chão, no início do século XX, com o peso do tempo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Um grito de festa.

De "Viagens no Tempo", de Bento Sampaio

Já se vê que o presbítero ficou desolado com o fiasco, “senhor padre, nada de apoquentar, não falta água na fonte…”
Ora, se me doía o coração em ter assistido impotente a toda a Via Crucis daquela semana, e como era inacreditável aceitar e entender, na minha idade de menino, os passos sinistros que o saudoso padre Rei relatava, “Jesus cai pela terceira vez”, e nada podia contra tamanha barbárie, “Jesus é pregado na cruz”, voltava ele mais aluído e contristado.
Lembro-me tão bem da minha revolta contra quem ousara acusar, açoitar, prender e crucificar um Homem bom e generoso, “isso foi mesmo verdade?”, perguntava à minha mãe, colando-me ao seu ouvido, “psiu…”, pedia-me silêncio. Por isso, cantava perturbado, “permiti que eu vos ajude a levar a vossa cruz”, implorando numa igreja lúgubre, cinzenta de tristeza – oh, como tudo estava consumado.
Ainda há uma semana ouvira, “muitos meninos estenderam os seus mantos e com ramos aclamavam…”, à Sua entrada em Jerusalém, numa impressionante euforia, “bendito o que vem em nome do Senhor!”.
Mas é assim, passeou-se o Senhor morto na noite de sexta-feira até ao Calvário, pouco acima da nossa casa, como se aquela tragédia ocorresse no meio de nós. Para cúmulo, o passeio pungente ainda vinha acompanhado da pesarosa marcha fúnebre, arrastando-se a filarmónica entremeada ao som estridente de matracas – que coisa mais funesta.
Mas tinha que acontecer um grito, “logo, quando o sino der meio-dia…”, apregoou o mais velho do rapazio esbaforido da minha vizinhança, e ele mexia-se, inquieto que o cerimonial da Semana Maior chegasse ao fim. E, quando passava o Carlos sacristão para a igreja, “está quase, rapazes…”, anunciou ele sorridente.
Logo ao primeiro toque do sino pequenino, o líder gritou, “aleluia, piãs pra rua!”, e toca de lançar o pião, uns contra os outros, numa resposta pronta e assanhada contra o Belzebu, “morre demónio!”.
Bem, ainda Heandel vinha muito longe de lhe descobrir a beleza barroca da sua magistral oratória “O Messias” – e mesmo que dela soubesse, tampouco tínhamos rádio lá em casa para apreciá-la –, e ouvira falar ao professor Eduíno do coro “Aleluia”, porventura o mais conhecido da grande obra do compositor alemão, ao tempo em digressão por Inglaterra.
Anos depois, pela boca de quem veio a seguir, o padre Gil, “ainda gosto mais do ‘Amen’, é fantástico!”, e grande era o entusiasmo dos dois por recordarem o orfeão do seminário de Angra, regido pelo padre José d’Ávila.
Até que uma vez aconteceu, na Semana Santa, escutar no programa Que quer ouvir? do Emissor Regional, “a pedido do ouvinte… vamos transmitir o Aleluia de Händel”, anunciava Sílvio do Couto.
Chamei minha mãe do quarto da costura e tranquei-me com ela no quarto de jantar. Colei-me ao rádio, e fechei-me todo naquela maravilha, antevendo aquele grito de festa na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém para a celebração da Páscoa.
Pois já era assim o mundo das artes dos outros, duzentos anos antes… Enche o meu peito, num encanto mago, o frémito das coisas dolorosas...
Adiante. O novo padre metera-se em grandes obras, transformando por completo a capela do baptistério com uma enorme pia em pedra basáltica no centro, e um bonito portão em ferro. Tudo cheirava, de facto, a novo, mas à custa da graciosa pia em mármore, sacrificada ao abandono da arrecadação que, muitos anos depois, passou a um lugar condigno na sacristia, e bem.
Já crescido, mexendo-me bem no dentro e fora da igreja, arrebanhou o novo vigário os ratos de sacristia para as cerimónias a decorrer no Sábado Santo, “tu levas o alguidar com a água benta”, disse-me na véspera, “o barro do alguidar joga bem com a pedra…”, discorria assim o padre Gil.
Em casa, já a noite se adiantava, cheirava mesmo a festa com massa fresca, a boa Maria a mexer a panela de papas de arroz para o domingo, e eu a preparar-me para rapá-la.
Apesar disso, comecei a consumir-me com a incumbência do baptistério, não fosse deixar cair a vasilha de barro.
Diferente e novo em ideias, o dinâmico vigário entendeu que o meu tamanho de rente-ao-chão poderia, na verdade, complicar-se, “está bem”, e fui substituído.
No meio dos novos cânticos e rezas, muitos eram os mirones a assistir ao ritual nunca visto. Quando se preparava para derramar a água já benta para dentro da pia, o Teófilo Quental, um rapagão bem espigado, calculou mal a altura da pia, o azar veio juntar-se ao cerimonial, quebrando-se o alguidar no chão e a água benta bem te vi…
Já se vê que o presbítero ficou desolado com o fiasco, “senhor padre, nada de apoquentar, não falta água na fonte…”, e foi esse mesmo o remédio prescrito pelo desenrascado sacristão, “in nomine Patris…”, benzeu o vigário a nova dose...
Santa Páscoa.
P. S. – Um diferente conceito, o da visibilidade, levou outra pia a tomar o lugar da primeira e fora da sua capela original – pois alevá...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Solares de Portugal.

Uma sugestão de férias com bom gosto, requinte, cultura e tradição.

terça-feira, 14 de abril de 2009

A bela casa de cima - I

De "Viagens no Tempo", de Bento Sampaio:

E, quando voltou, deu-lhe uma volta completa que fez da velha casa o que está à vista – janelas bordadas de fantasias.
Pouca coisa acima da casa da Gusmoa, aí a meio caminho da igreja e das Alminhas, lá está ainda a bonita casa de cima, ficando-lhe defronte a casa de baixo, onde nasci e me criei, nossa que é, digamos, na família ficou.
Ouvi a alguém, ou talvez de mim mesmo – confesso que já nem sei – que as casas são o berço da gente, e verdade é este sentimento que trago apertado, ou seja, o apego a três casas que me acompanharam no devaneio infantil de nelas fazer ninho.
A desafogada empena da casa de cima, altiva, duas varandas geminadas empoleiradas no seu topo, o balcão de arcada a ela achegado, o grande pátio de lidas de lavoura, tudo nela era largueza que muito me enchiam os olhos, “Marianinha, aquela é velha, é verdade, mas tem duas estufas…”, convencia meu avô a sua mulher pequenina que lhe havia de ficar atrás, na sua desanda para a Califórnia, e continuava ele num derriço de ideias, “assim, ficais prevenida, mulher…”, com os ananases em demanda da Europa.
Ela, a minha avó Mariana Augusta, o corpo miúdo, anuiu apertando aquele mimo a medrar de consolo dentro de si, “se assim julgais…”, e ala meu avô Chico de acertar-se na permuta com o casal de cunhados solteiros, e de se sumir por dezoito anos no desatino de fortuna, “quando voltar, hei-de dar-lhe outro jeito…” – partiu com a promessa…
Não era homem que se ficava em meras juras, isso nunca! Era uma criatura decidida. E, quando voltou, deu-lhe uma volta completa que fez da velha casa o que está à vista – janelas bordadas de fantasias.
Mas a entrada lateral não lhe descobria meu avô o modo de a lançar com elegância arquitectónica, “Joãozinho, vê se me resolves isso”, disse a meu pai, já as férias grandes chegavam ao fim.
Algum tempo depois, mandava ele de Santarém o desenho, à escala, de como seria. E a carta, “papá, a escada deverá ser com degraus de pedra aparelhada com o bordo do passo arredondado”.
Assim corria a escada de dois lances em L numa subida suave para a casa – o de cima bem mais curto que o de baixo –, dando para um balcão de meia tarde para se lhe entrar num hall bem luminoso – coisa primorosa.
Mas as voltas são muitas e a casa foi parar, e bem, à Igreja, para lá receber as Irmãs que ainda cuidam dos meninos da Ponta Garça.
E aí entra o génio iluminado de alguém – certamente que não foi o arquitecto que a requalificou, e isso afianço – que entendeu dar-lhe um outro giro que foi empinar num só lance uma escada com degraus de cimento, e os de pedra aparelhada com o bordo do passo arredondado, sumiram-se no entulho das obras de requalificação, ou…
E pior: foi-se o mimoso balcão de meia tarde. Pronto, esta é a reposição correcta do que, porventura, algum dia – e eu já estiver aparelhado sem fala… – alguém se dispuser, “como era então?”.
Adiante, que a bela casa de cima servia de primeira escapadela segura de me pôr porta fora, cruzando apenas o nosso caminho; e eu corria escada abaixo, “toma sentido menino…”, prevenia minha mãe do alto da escada, e para quê, se nem automóvel nem camioneta passava todo o santíssimo dia – só o burro do João manco, zurrando e mulheres e vendilhões de peixe sempre discutindo – “papá, vamos almoçar?”, e ele beijava-me, pegando-me no colo, feliz, “atravessaste sozinho o nosso caminho…”.
Diz-se que não há caminho mais seguro na vida do que encher os olhos em terra quanta a vejas e casa quanta tenhas, o que no caso ia muito para lá do básico e necessário.
É que se assim não fosse, que seria da nossa sereníssima casa de baixo, vestida de cantarias, que a nós todos viu crescer, e do seu vistoso balcão nas traseiras sobranceiro ao mar; do lustroso paço dos Botelhos da Senhora da Vida; a do solteirão e nosso parente Horácio Pimentel, desapegada de outras, de porta e janelas redondas em fina cantaria; da linda casa de António Elias; do gracioso balcão em arcada e sua cocheira e também o desaparecido óculo de entrada da casa de meus sogros; a placidez de linhas da casa da Adriana; a ermida da Senhora das Mercês, a tal jóia barroca; dos balcões com senhoras em tais conversas de meia tarde; de estrebarias albergando charabãs cansados de festas e arraiais; oh, e dos portões, franqueando o fora-e-dentro de seus amos; e outros tantos brindes que os nossos nos legaram?
Se tal não fora a vontade de erguer património na minha Ponta Garça, pouco mais do que casa sim, casa não, de porta e janela, teria hoje a gente para admirar.
Ah, mas ainda se têm vizinhas demorando-se num cochicho pegado – que gostoso viver é o de gente boa da minha linda terra.
Ficam-me, já se vê, mais coisas para se contar da bela casa de cima com janelas bordadas de fantasias...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Manhã de Páscoa.

Desde a manhã de Páscoa, e enquanto Verão houver, cheira a festa na nossa terra.
Os festivos acordes que rasgam a manhã; a frescura das flores na rua; a solenidade das colchas nas janelas; a fraternidade das mesas postas nas ruas ou nas casas; o branco das crianças em coroações ou o vermelho dos homens em procissões; as bandeiras que enfeitam o dia ou as luzes que festejam a noite; os impérios engalanados ou as Igrejas ornamentadas a preceito; Coros, Irmandades, Mordomias ou Comissões de festas; vozes açoreanas marcadas pelo timbre da diáspora: um Povo em Festa.
Os Açores. Isto sim são eles próprios.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Cruz, sinal de Vitória.

Celebrar a Páscoa é viver a vitória da vida, cuja salvação da humanidade tem no madeiro da cruz a primeira testemunha. A cruz é, por isso, o símbolo típico do cristianismo, não tanto pelo sofrimento que nela foi infligido, mas sobretudo pela maravilha da salvação, da qual foi instrumento.
É, assim, e antes de mais, sinal de fé. Entre nós, sinal da fé de quase todos os açoreanos e até mesmo de quase todos os portugueses, praticantes ou não.
Mas é também sinal da nossa própria identidade histórica. A cruz é parte integrante e substancial dos nossos usos e costumes, da nossa própria paisagem edificada, das várias formas pelas quais se expressa a arte e até das nossas vivências.
Para poder apagá-la da nossa história seria necessário apagar grande parte da cultura do nosso país e privá-lo de uma característica essencial da sua identidade.
A cruz está estacada na História do homem e do mundo.
Mesmo assim, ignora-se, ou finge-se ignorar, que é a cruz o primeiro e o maior símbolo da libertação do homem.
O laicismo já tem anos suficientes para atingir a sua maturidade. O fundamentalismo anti-confessional deve dar lugar a uma postura aconfessional que, nem por isso, ignore ou hostilize o facto religioso e os seus valores.
Ostentar publicamente a cruz é exprimir a convicção de que todos os homens são iguais e irmãos uns dos outros, crentes e não crentes, judeus e pagãos, negros e brancos.
Cravar no seio do mundo contemporâneo o milenar símbolo da vitória é lembrar aos homens que a razão e o fim da nossa existência é a prática da solidariedade e o amor ao próximo.
Visto assim, dificilmente encontraremos outro sinal que, com tanta força, exprima o valor daqueles que nos rodeiam. Haverá nisso mal?
Uma Santa Páscoa.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Semana Santa.

Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquiatatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et peccatto meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut justificeris in sermonibus tuis, et vincas cum judicaris.
Ecce enim in inquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifesti mihi.
Asperges me, Domine, hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium st laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne projicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et implii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea justitiam tuam.
Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocasutis non delectaberis.
Sacraficium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Jerusalem.
Tunc acceptabis sacrificium justitiae, oblantiones, et holocausta: tunc imponent super altare tuum virtulos.
Gloria Parti, Filio, et Spiritus Sancto.
Sicut erat in principo, et nunc et semper, et in saecula saeculorum. Amen.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uma Encíclica sempre actual.

CARTA ENCÍCLICA DO SUMO PONTÍFICE S. PIO X, PASCENDI DOMINICI GREGIS
Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica,

Veneráveis Irmãos, saúde e benção apostólica,

A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor, entre os principais deveres impostos por Cristo, conta o de guardar com todo o desvelo o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganadora. E, na verdade, esta providência do Supremo Pastor foi em todo o tempo necessária à Igreja Católica; porquanto, devido ao inimigo do género humano nunca faltaram homens de perverso dizer (At 20,30), vaníloquos e sedutores (Tit 1,10), que caídos eles em erro arrastam os mais ao erro (2 Tim 3,13). Contudo, há mister confessar que nestes últimos tempos cresceu sobremaneira o número dos inimigos da Cruz de Cristo, os quais, com artifícios de todo ardilosos, se esforçam por baldar a virtude vivificante da Igreja e solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo.
Por isto já não Nos é lícito calar para não parecer faltarmos ao Nosso santíssimo dever, e para que se Nos não acuse de descuido de nossa obrigação, a benignidade de que, na esperança de melhores disposições, até agora usamos. E o que exige que sem demora falemos, é antes de tudo que os proclamadores do erro já não devem ser procurados entre inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.
Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasfemam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja; e, cerrando ousadamente fileiras, se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem.
Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá, porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam os seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado.
Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias: porquanto fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e, sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera. Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados numa consciência falsa, persuadem-se de que é amor da verdade o que não passa de soberba e obstinação. Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los a melhores sentimentos e, para este fim, a princípio os tratamos com brandura, em seguida com severidade e, finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas.Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi debalde; pareceram por momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com maior altivez. Poderíamos talvez ainda deixar isto desapercebido se tratasse somente deles; trata-se porém das garantias do nome católico.
Há, pois, mister quebrar o silêncio, que ora seria culpável, para tornar bem conhecidas à Igreja esses homens tão mal disfarçados.
E visto que os modernistas (tal é o nome com que vulgarmente e com razão são chamados) com astuciosíssimo engano costumam apresentar a suas doutrinas não coordenadas e juntas como um todo, mas dispersas e como separadas umas das outras, a fim de serem tidos por duvidosos e incertos, ao passo que, de facto, estão firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A crise segundo Einstein.

"Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera-se a si mesmo sem ficar superado. Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, viola o seu próprio talento e respeita mais aos problemas do que às soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la."

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Numa noite tempestuosa*

A vida vale pouco – tudo mente
É breve a infância e curta a mocidade
Gasta-se o tempo em busca da verdade
Que tanto esmaga e dilacera a gente.

É sempre mais feliz quem menos sente
Quem de ter valor se persuade
No coração humano há só vaidade
E quem a satisfaz vive contente.

Por isso te amo tanto, oh! Natureza
Linda, potente, majestosa e forte
Sempre nova na graça e na beleza.

Ser venturosa não me coube em sorte
Mas do teu esplendor minh’alma presa
Só por mais te não ver me custa a morte!

Amélia Janny
(1841- 1914)
*Sem título, mas escrito numa noite tempestuosa
Enviado por JBS

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Em Dia Mundial da Juventude.

Decorre Domingo, em Vila Franca do Campo, o encontro de Ilha do Dia Mundial da Juventude. Em ano paulino, aqui fica o nosso modesto contributo ao habitual Festival da Canção, interpretado pelos jovens do edílico lugar da Várzea:
"Para mim viver é Cristo,
Para mim viver é Cristo.
É Cristo. É Cristo.
É Cristo. Jesus Cristo é meu viver.

Num mundo que esquece Raízes antigas,
Num mundo que apaga Valores Eternos,
Eu creio em Cristo, eu amo a Verdade
E sou mensageiro da Eternidade.

Entre gente frágil com medo da fé,
Entre falsas fés com vergonha de si,
Eu vou anunciar a Salvação,
Eu quero gritar: eu sou Cristão!

Tanta gente triste e o mundo com pressa,
Homens que sofrem e ninguém tem tempo,
Eu amo a Vida, em cada dia
Cristo em mim vive: eu levo a alegria."

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O exemplo britânico.

Os pais dos alunos com comportamentos violentos nas escolas britânicas vão passar a ser multados num valor que pode ir até aos 1450 euros. 'As intimidações verbais e físicas não podem continuar a ser toleradas nas nossas escolas, seja quais forem as motivações' sublinhou a Secretária de Estado para as Escolas. Disse também que ' as crianças têm de distinguir o bem e o mal e saber que haverá consequências se ultrapassarem a fronteira'. Acrescentou ainda que 'vão reforçar a autoridade dos professores, dando-lhes confiança e apoio para que tomem atitudes firmes face a todas as formas de má conduta por parte dos alunos'. A governante garantiu que 'as novas regras transmitem aos pais uma mensagem bem clara para que percebam que a escola não vai tolerar que eles não assumam as suas responsabilidades em caso de comportamento violento dos seus filhos. Estas medidas serão sustentadas em ordens judiciais para que assumam os seus deveres de pais e em cursos de educação para os pais, com multas que podem chegar às mil libras se não cumprirem as decisões dos tribunais'. O Livro Branco dá ainda aos professores um direito 'claro' de submeter os alunos à disciplina e de usar a força de modo razoável para a obter, se necessário.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

"No um de Abril vão os burros onde não devem ir."

Assim conta o ditado, o qual nos lembra a tradição do 1 de Abril, chamado o dia das mentiras. Antigamente, em França, era o ano novo celebrado por agora, com a chegada da Primavera e até ao dia 1 de Abril, mas, em 1564, com a adopção do calendário gregoriano, o ano novo passou a celebrar-se a 1 de Janeiro. Nem todos o aceitaram de bom gosto, mantendo o costume pagão. Ora, nesse tempo em que a cristandade tinha orgulho de si própria e sentido de humor, logo começaram alguns a inventar festas "fantasma" e convidar para moradas que não existiam ou para casas cujas famílias nem estavam prevenidas para tal, pregando assim divertidas (e merecidas) partidas aos paganistas de então.

terça-feira, 31 de março de 2009

Frescores de Varanda.

Viagens no Tempo, de Bento Sampaio

Afinal, sempre se arranja um tempo para que haja Primavera…

Sabe-se que é o tempo a companhia inseparável de todo o nosso sempre.
Se bom, todos se recreiam com a sua brandura, “que rico dia o de ontem, espectacular!”; se assim-assim, “vá que não vá, pelo menos não choveu…”; e se ruim, “não tem que saber, quando vira para o canto do ilhéu…” – olhem, é o que a mãe-natureza nos empresta.
No meu dentro e fora – rua abaixo, rua acima – um dia nunca igual ao outro, ontem azulado, hoje queria vestir-se de cinza – ainda assim de boa catadura – e ainda aquele focinho de cão, azedo e transtornado, sacudido de vento rijo e briguento, já se vê, corri para me abrigar debaixo de uma varanda, e nada demais do que uns respingos soltos. E então me apareceu o meu bom irmão Nuno, “o tempo é tanto pior visto do lado de dentro da janela” – e é.
Quando me toca a rebate a lembrança, vêm os meus em fileira, e obviamente cotejo a sua memória, “se fosse viva, hoje teria setenta anos”, cogitei na única e, dos três, a última andorinha a deixar-me só, sem o consolo de mais conversas de sangue.
Como é breve a infância e curta a mocidade… E tanto cuidado teve meu pai com aquela menina, “claro que pode, senhor Sampaio…”, acedeu o padre Leite ao seu pedido, e lá foi ela, a minha querida irmã Fátima, baptizada com água morna, como já o referi em tempos.
Pois foi-se ela num embalo íntimo de quem levava a alma chegada a si, segura do seu Destino, descansada com a prole que ficou no seu aquém de saudade, já os outros manos lhe seguiram na dianteira, abrindo caminhos de esperança para aquela andorinha que corria alvoroçada por chegar cedo ao seu Além e lá encontrar o abrigo almejado.
Com esta distância dos anos, sonhando com os meus na Terra dos Vivos, fico-me a cismar: felizes os que habitam a vossa Casa, que para sempre vos louvarão, e até a ave lá encontra abrigo e ninho para a sua descendência – Deus queira.
Ora, vir aqui tagarelar de gente calada, em pó desfeita, a alma entregue ao Criador, parece talvez uma fala desenxabida, despropositada, uma extraordinária falta de gosto. Mas o apego…
Agora, no meio dos frescores do tempo que corre, de aragens balsâmicas, de incensos inebriantes, agasalhando laranjeiras e limoeiros afogueados de viço, de jardins ornados de magnólias, jacintos, frísias, amores-perfeitos, ah, e de lírios do campo e orquídeas, e ainda de atalhos contornados de azáleas, tudo fervendo de vigor, que mais se pode querer dessa Mater?
Quem dera agora ouvi-las de viva voz a elas: de Florbela – não sei quem tantas pérolas espalhou… murmura alguém pelas quebradas fora, flores do campo, humildes, mesmo agora a noite os olhos brandos lhes fechou – e ainda o grito de Amélia – por isso te amo tanto, oh! Natureza, linda, potente, majestosa e forte, sempre nova na graça e na beleza.
E outras andorinhas vêm sempre chegando. Crescem alegres, saltam, riem, choram e cantam, dizendo coisas que a todos encantam. Não param esses nossos meninos, são eles a cópia fiel da tal gente calada, os tais que, desfeita já a natureza, alimentam outros sonhos, como se fora mais feliz quem menos sente.
Como eu, nos anos verdes, trepando nespereiras e laranjeiras, na linda quinta da nossa casa, tudo lhes serve para galgar muros, pendurando-se no que está mais à mão, e desaparecem de nossas vistas, que mais proezas têm pela frente – oxalá os nossos meninos se enfiem por veredas suavizantes.
Mas não posso esquecer-me do último Verão, ele num aceno derradeiro, o sol já cansado a acomodar-se muito mais cedo, os dias a minguarem, e ela, a natureza a esmorecer.
Mas havia de voltar a Mater naquele primor de requinte primaveril – uma Dama, aqui minha vizinha, folgando na sua Lomba da Maia –, a receber-me com flores atiradas sobre mim, numa sentida afeição, uma amenidade, uma tal singularidade como se me sentisse um virtuoso fidalgo num remoto principado.
Afinal, sempre se arranja um tempo para que haja Primavera…

segunda-feira, 30 de março de 2009

Espanha sai à Rua.

Diversas organizações espanholas e a Igreja Católica promovem esta semana várias iniciativas, incluindo manifestações em várias cidades, contra a proposta reforma da lei do aborto em Espanha.
Entre as várias iniciativas contam-se manifestações apoiadas pela Conferência Episcopal Espanhola, que promove quarta-feira a sua “Jornada pela Vida”, que este ano dedicará especial atenção ao tema do aborto.
Alguns dos promotores sustentam que as iniciativas poderão ser as acções de protesto mais amplas da sociedade contra os vários ataques à família, como a eutanásia e os casamentos homossexuais, um dos temas que mais mobilizou a Igreja Católica espanhola.
Desta feita, a Igreja Católica espanhola apostou numa forte campanha, que terá custado mais de 300 mil euros e que já ficou marcada pela polémica.
Inclui o uso de mais de 1.300 cartazes gigantes em 37 cidades espanholas alegando que a flora e a fauna têm mais protecção do que os não-nascidos.
Os cartazes - onde está uma foto de um bebé a perguntar “E eu?”, e outra de um lince com a frase “lince protegido” - são acompanhados de 30 mil posters e de oito mil folhetos para distribuir por todo o país.
Coincidindo com a polémica campanha, mais de um milhar de intelectuais assinaram uma “Declaração de Madrid” em que dizem ter “razões científicas e não ideológicas” para defender o direito à vida desde o momento da fecundação.
Os cientistas, biólogos, juristas, ginecologistas, filósofos e professores universitários espanhóis que assinaram o texto criticam a proposta de uma lei de prazos para a interrupção voluntária da gravidez.

sexta-feira, 27 de março de 2009

O Manuel da Virginia.

Um bem castiço artigo de João Bento Sampaio:

E a primeira coisa que fez foi renovar a carta apreendida, “já drivaste, alguma vez?”, e a resposta, que o Pai Eterno já riscou do rol, “não, nunca drivei…”.

Coisa pouca de corpo, não era da Virgínia este Manuel, nem da minha Ponta Garça também, e mesmo na Vila ninguém saberia quem ele era. Então quem poderia ser essa figura barbuda, escassa de canastro, um Zé minguado, quase ninguém?
Como aprecio escarafunchar tudo o que me possa impressionar, ia ouvindo o que me diziam dele, “é uma alma pródiga, tu vais ver…”, e com este meu jeito, “como é que vai ser?”, indaguei do meu bom amigo Zé de Medeiros.
Tudo combinado para a quinta-feira da passada semana, “levas uma garrafinha…”, e sendo um ajuntamento grande, “levo duas…”, pensei – pois claro, melhor assim.
Missa celebrada na minha terra, o rancho da Várzea ia saindo, os bordões alvoravam do chão como preces atendidas, os irmãos trocavam olhares sentidos com familiares, apertavam amigos e aquele mirone que era eu ficou-se ao largo que assim se via melhor – o pormenor do corpo parco do Manuel, o olhar cavado, vendo porventura mais do que todo o grupo, o girar dele, à fala com este mesmo ali, esse acolá que o chama, e aqueloutro que já não via há um par de meses – “é aquele!”, disse-me o meu bom Zé Jacinto, e lá ia aquele estranho romeiro com os companheiros de ventura.
Nada sabia de mim o Manuel da Virginia.
Quando lhe disseram que eu rabiscava para o Diário, “ele quer escrever sobre ti, Manuel”, aí o homem se abeirou, “que precisa o senhor de mim?”.
Eu? Nada. Aposentado, a vida a correr-me sem me queixar, pensei responder, “não, não preciso mesmo de nada…”, e passei-lhe o braço por cima como se eu fosse muito maior do que ele, “gostava só de lhe perguntar…”.
Ele abriu-se, “eu gosto de estar entre gente…”, mas ia a dizer-lhe do que me haviam dito sobre a sua generosidade, “se já sabe…”, como quem diz, “ora, vamos lá a outra”. Que não tinha votado no Obama, “mas já mostrou que sabe o que o povo espera dele – só isso é que interessa…”.
Queria eu saber dos acasos da vida que lhe acenou, “vem daí Manel!”. O que lhe aconteceu… sumiu-se de New Bedford para se safar duma enrascada da idade, “ia numa correria feia…”, e o resultado foi caçarem-lhe a carta por dez anos, uns dias de degredo atrás das grades, e virou-se para mim, “e agora?”
Aquele Manuel, parecendo coisa pouca, menor que os demais, achou-se só em si mesmo, fixou-me certeiro, “a sorte é o trabalho que a gente agarra”, e foi parar ao Estado da Virgínia para mostrar que poderia ser gente grande,
Valeu aquele detalhe, “no tempo, isso nos finais de ‘60, os computers estavam ainda no princípio” – e com o sorriso que se tem da vitória – “pouco sabiam os States uns dos outros das trapalhadas da sua gente…”, e a primeira coisa que fez foi renovar a carta apreendida, “já drivaste, alguma vez?”, e a resposta, que o Pai Eterno já riscou do rol, “não, nunca drivei…”.
E foi por aí fora, mostrou o jeito, a garra de deitar a mão ao que poderia dar nas vistas, “se a gente não se mostra…”, pois tinha razão o Manuel.
O rapaz medra a olhos vistos no State of Virginia. É novo, cruza-se de olhares com as moças da nação, não topa vivalma da sua terra, e que fazer? Bem, nestes casos o coração risca, o tino aguça-se e o melhor partido é aquele que nos traz o proveito completo para o corpo e o sossego de consciência.
Está ele e ela em idade de se casarem, sim senhor. A neta do patrão acha-lhe graça e juntam-se num enlace feliz. Poucos dias de lua, que o mel há-de produzir-se no cortiço de suas vidas.
E vai à luta o Manuel da Virginia, cresce, multiplica tudo, cria a Copper Massory, uma construtora espalhada de obras em dez estados, e entrega-se na maior estrutura até hoje – um hospital de trinta e cinco edifícios, “estamos nele há três anos, mas tem que estar pronto em 2016, sem falta”.
Vê-se que um Manuel desta fibra, indo tão longe, ganha à farta para o sustento da casa, e sobra ainda muitas dolas que não as quer todas para si. Pois claro, liga-se com o Governo Regional em ajudas a quem queira estudar muito mais do que ele – e os de amanhã, eles e elas, misturando-se com os de longe, vão num desejo de mais saber.
Ai, o Manuel da Virginia que devora futebol e só o Benfica lhe caiu no goto. Das muitas saudades da sua Lomba de São Pedro, o Manuel chamou o seu Benfica e o Sporting para mostrarem à terra as habilidades de campeões, “aluguei por dias um terreno…”, aplanou-o e lá se exibiram os melhores. O curioso é que o dono da terra a queria de volta do mesmo feitio, “até tivemos de repor uns mamelões que a corisca tinha…”, contou divertido, depois de nos saciarmos, na sua amada Lomba, com cabrito assado para um grande magote de gente.
E no fim, como quem trouxe escolates e candins para os petenhos, vira-se num consolo de alma, “é para si…” – um relógio de algibeira com a inscrição Romeiros 2009.
Será rico esse Manuel? Talvez…O povo diz: “só se é rico com a graça de Deus” – e é verdade.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Viver a Quaresma.

Renúncia, Jejum e Caridade
Será que deixaram de ter sentido?
Para todo o Cristão de verdade
Dão rumo ao homem perdido!

Um dia de fraca alimentação
Dando o seu preço a quem precisa
Continua a fazer sentido no Cristão
Que esta sociedade desigual ajuíza

Amanhã terei Água e apenas Pão
De mais coisa nenhuma me sustentarei
E não é mania nem masoquismo não

É ter um dia igual ao de muita grei
Composta por muito faminto irmão
E assim tentar cumprir um pouco a Lei.

Autor desconhecido (enviado por JBS)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Portugal pro Vida quer constituir-se Partido Político.

"O Portugal pro Vida é um movimento de cidadãos, maioritariamente cristãos e católicos leigos, que visa levar a «Causa da Vida» aos bancos parlamentares por direito próprio. Embora, como qualquer movimento político, devamos assumir uma posição aconfessional, assumimos plenamente a nossa inspiração na Doutrina Social da Igreja e no «Evangelho da Vida» do nosso saudoso papa João Paulo II. Defendemos e praticamos o diálogo institucional com a Igreja Católica e outras organizações religiosas. Nesse quadro temos tido a oportunidade de, em diversas ocasiões, manter contactos com a Conferência Episcopal Portuguesa, mas também com igrejas cristãs da Aliança Evangélica Portuguesa e até com a Comunidade Islâmica em Portugal.
Tivemos a alegria e a honra de receber já diversas cartas de apreço e reconhecimento pelo nosso trabalho pro-Vida, de que destacamos uma da Conferência Episcopal e outra do próprio Vaticano. Consideramos que as entidades políticas, governo e partidos, têm muito a ganhar ao incluir nos seus processos de decisão também os contributos daqueles cuja vida se centra no plano Espiritual e, por força disso mesmo, não raro vêm mais longe e mais fundo no coração dos homens. Acreditamos, enfim, que um país mais «amigo da Vida» terá mais condições para manter uma sociedade mais desenvolvida, sustentável e feliz.Por isso, algumas das nossas primeiras bandeiras serão a luta política sem tréguas contra o aborto, a eutanásia, o "divórcio na hora", os casamentos homossexuais e as limitações do Estado à liberdade de educação. Também por isso o nosso esforço não se tem esgotado na definição de linhas de oposição à política que vem sendo seguida no nosso país, mas tem-se preocupado igualmente por apresentar uma política alternativa - necessariamente pro-Vida e pro-Família - que a prazo nos coloque a salvo do «Inverno Demográfico» no qual nos vamos dissolvendo.Muitos cidadãos hoje não votam ou votam em branco, por não se reverem em qualquer das alternativas existentes. Queremos oferecer-lhes a possibilidade de se afirmarem pro-Vida e retomarem a sua participação cívica plena. Sabemos que por vezes as sociedades mais oprimidas ou descrentes não encontram para os seus anseios de Liberdade outro aliado senão o elemento religioso. Aconteceu há poucos meses na Birmânia (Myanmar) com os monges budistas e vai acontecendo também no Tibete. Referimos estes dois exemplos sem maioria católica para não nos acusarem de sectarismo. No mundo cristão, os exemplos ao longo da história seriam praticamente incontáveis.Portugal, hoje, vive um lento processo de progressiva asfixia democrática com o controlo progressivo do aparelho de Estado por grupos de interesses desvinculados do superior interesse do povo. E também no plano ideológico, as diferentes e respeitáveis doutrinas políticas cederam já muito terreno ora a um misto de pragmatismo a-moral e relativismo ético, ora a um laicismo dogmático - quase uma "igreja" ele próprio, com a sua liturgia, os seus doutrinadores e a sua dogmática.Por tudo isto, cientes da hora decisiva e dramática que vivemos, foi tomando corpo este projecto dentro de vários grupos de cidadãos há anos temperados na luta pró-Vida, de diversos movimentos de leigos da Igreja Católica e também de outras igrejas cristãs. Temos um sítio na internet onde decorre o nosso debate interno, aberto à sociedade, e anunciamos iniciativas, petições, congressos, etc. Convidamo-lo a ir até lá e participar deste processo de pensamento e acção em rede. Já somos cerca de 2000 cidadãos de todos os pontos do país e da emigração.Mas continuamos a crescer e precisamos da sua colaboração dentro do possível. Neste momento temos a tarefa urgente e prioritária de nos constituirmos legalmente, para o que nos faltam ainda 5.500 assinaturas a reunir até ao dia 27 de Março se ainda quisermos aspirar a participar nas eleições europeias, onde seria muito bom já poder apresentar aos portugueses os nossos pontos de vista. A um qualquer, tal pode parecer tarefa impossível de realizar. Não a homens e mulheres de Fé como nós!"
http://portugalprovida.blogspot.com/

terça-feira, 24 de março de 2009

A Europa em Banda Desenhada

Para quem aprecia Banda Desenhada com refinado sentido de humor, aqui fica a sugestão: A Europa explicada aos Europeus, tradução portuguesa do original de língua francesa, à venda no Modelo da Comadre, por 2,50€.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A Sinagoga de Ponta Delgada em livro.

Está de parabéns José de Almeida Mello pelo sucesso do lançamento do seu novo livro Sinagoga Sahar Hassamain de Ponta Delgada – História, Recuperação e Conservação. A apresentação foi feita com estilo, como é hábito em José Andrade. O livro está à venda por 10,00€, revertendo a receita para as obras, por benemérita decisão da Publiçor.
Um mar de gente acorreu ao Hotel Marina Atlântico, dando assim apoio inequívoco à causa da recuperação da Sinagoga protagonizada por José de Mello. O velho espaço novecentista da Rua do Brum, que deve ser usado como memória e espaço cultural e, como sugeriu Dom Duarte de Bragança, em visita à nossa cidade, conservando a sua vertente como local de oração disponível a todos os crentes da Antiga Aliança que passem por estas ilhas e encontrem assim um local onde recordem Jerusalém.
"Se eu de ti me não lembrar, Jerusalém, fique presa a minha língua, fique presa a minha língua."

sexta-feira, 20 de março de 2009

O futuro da Igreja: no meio está a virtude.

A Igreja tem promessas de eternidade, dadas pelo próprio Cristo, o qual prometeu a sua existência até ao fim dos tempos. Enganam-se por isso aqueles que vêem o seu fim na crise em que a Igreja foi mergulhando desde há algumas décadas e que só agora, para os mais atentos, começa a dar sinais de voltar ao rumo. Aliás, pela primeira vez, em muitos anos, os católicos aumentaram no mundo, passando, em 2007, a 1 bilião e 147 milhões aproximadamente, sendo, em 2006, 1 bilião e 131 milhões. E é de registar o aumento sobretudo na Europa, ainda que na ordem dos 0,8%. Do mesmo modo, o número de sacerdotes começa a aumentar, tendo passado de 405.000 para 408.000, no ano de 2007.
Mas além destes, a Igreja tem dispersas algumas comunidades que, opondo-se aos excessos do Concílio, perderam a plena comunhão. A maior delas é a Fraternidade de São Pio X, a qual tem actualmente 491 sacerdotes, 215 seminaristas, 6 seminários, 88 escolas, 2 institutos universitários, 117 irmãos, 164 irmãs e milhares de fiéis, estando em franco crescimento, sobretudo no centro da Europa.
O Papa, convencido de que a Igreja existe para converter o mundo e não para se tornar igual a ele (aquilo a que gostam de chamar os tempos de hoje), querendo voltar a unir os mais sensíveis à Tradição com a "grande Igreja", pediu aos bispos do mundo inteiro a sua colaboração na resolução deste problema, através da Congregação para a Doutrina da Fé. Esta é uma das novidades da carta que o Papa lhes dirigiu, explicando como vai enfrentar a possível integração dos lefrebvristas na plena comunhão da Igreja, e que comportará, em último termo, uma reflexão conjunta sobre o Concílio Vaticano II.
Certamente o ponto de equilíbrio entre a sã Tradição, que certos sectores ousam despresar, e a nova linguagem do Concílio, que os tradicionalistas ainda não conseguiram abraçar.
«Desta meditação todos devemos tirar um novo e eficaz convencimento da necessidade de ampliar e aumentar essa fidelidade, rejeitando totalmente interpretações erróneas e aplicações arbitrárias e abusivas em matéria doutrinal, litúrgica e disciplinar», diz claramente o Santo Padre, anunciando assim o fim do regabofe que resulta de cada um dizer o que bem lhe apetece, achando-se sempre o novo messias e o verdadeiro salvador do mundo, ele, muitas vezes o padre, acima de séculos de história, de milhares de estudos, de milhões de almas crentes de tantos e tantos anos, ele, normalmente um cavalheiro de medíocres notas no Seminário, fracos dotes oratórios e escassa bagagem cultural, ele, chegou agora e só ele sabe, só ele é a verdade...
Já João Paulo II pediu aos teólogos e especialistas «um novo empenho de aprofundamento, no qual se esclareça plenamente a continuidade do Concílio com a Tradição, sobretudo nos pontos doutrinais que, talvez pela sua novidade, ainda não foram bem compreendidos por alguns sectores da Igreja».
Bento XVI deixou mesmo o desafio: «Para alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja. Quem quiser ser obediente ao Concílio, deve aceitar a fé professada no decurso dos séculos e não pode cortar as raízes de que vive a árvore.»
A Fraternidade de São Pio X já veio dizer, pela voz de Bernard Fellay, o seu Superior, que "longe de querer parar a Tradição em 1962, nós desejamos considerar o Concílio Vaticano II e o ensino pós-conciliar à luz desta Tradição que São Vicente de Lérins definiu como “o que foi querido sempre, por toda a parte e por todos” (Commonitorium), sem ruptura e num desenvolvimento perfeitamente homogêneo. É assim que nós poderemos contribuir eficazmente à evangelização pedida pelo Salvador. (cf. Mateus 28,19-20)" assegurando a sua vontade de abordar as questões doutrinais reconhecidas como “necessárias” pelo Decreto de 21 de Janeiro, "com o desejo de servir à Verdade revelada que é a primeira caridade a manifestar a respeito de todos os homens, cristãos ou não. Colocamos estas questões doutrinais sob a proteção de Nossa Senhora de Toda Confiança, com segurança de que ela nos obterá a graça de transmitir fielmente o que recebemos, “tradidi quod et accepi” (I Cor. 15,3)."
Resolvendo assim a desunião da Igreja, o Santo Padre, sabiamente, recoloca-a no ponto de equilíbrio que falta ao mundo. Novelas toda a gente tem em casa. O homem, sobretudo o dos tempos modernos, precisa de encontrar na Fé Algo muito acima.
E aí a missão é doutrinar e não a constante perda de tempo a questionar tudo, dando implícita razão aos adversários da doutrina. Como ensinou Santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja, Roma locuta, causa finita, ou, em vernáculo, o mesmo é dizer, Roma falou, encerrada a questão.
Se cada um se limitasse a, pelo menos, fazer bem a pequena parte que lhe está atribuída, quanto mais longe não iríamos!

quinta-feira, 19 de março de 2009

Dia do Pai.

Hoje, dia de São José, é dia do Pai nesta Lusa Nação. Homenageamos o nosso e esperamos as mais ricas prendas das mãos daqueles de quem ternuramente assim somos. Ricas porque feitas por si próprios, com aquele encanto de quem tem um tesouro guardado para tão grande dia. Que a vida lhes sorria: aos nossos pais e aos nossos filhos!

quarta-feira, 18 de março de 2009

As Romarias.

"Pelas veredas do monte,
Vai passando a Romaria,
Cantam ecos e Romeiros:
Padre-Nosso, Avé Maria."

As romarias estão por toda a Ilha, timbrando, em toadas de Avé Marias, adros e vielas. De cajado na mão, aí vão eles percorrer a velha Ilha do Arcanjo. Como sempre. Desde o tal terramoto de 1522, que nos levou a velha Capital e milhares das suas vidas. Para que tragédia assim não nos assole semelhante.
Em cada fim de semana uns saem, outros regressam. Neste, é a vez dos do bastião do Arcanjo. E com eles nosso irmão Tibério.
Um abraço fraterno.

terça-feira, 17 de março de 2009

É pegar ou largar.

Aqui vai uma crónica de Bento Sampaio, do seu Viagens no Tempo, enviada a propósito do artigo sobre a Rua do Frias:
"eram, eram, antes de chover, mas agora chove mesmo...”, e esboçou aquele sorriso brando de quem tinha a vida a correr-lhe bem.
Às vezes, torna-se difícil tomar uma decisão. Mas porquê tanta dúvida em definir uma atitude? Mal sabemos até a razão da delonga, porque tudo indicava naquele caminho. E, pronto, adiante – fica para outra ocasião.
Uma pessoa, à minha frente, assume-se, “sim, esse aí”, dirige-se para uma moça loira, enxuta, não tem mais que dezoito anos, duas tranças a enfeitar-lhe aquele gracioso gesto de adolescente e um sorriso brando a adocicar-lhe o semblante. E ela, satisfeita com mais uma venda, volta-se para outro cliente, ainda indeciso, “olhe que vai chover... são só dez escudos”, mas ele segue em frente, apostando numa melhoria do tempo.
E eu imitei-o – quem sabe se é só uma nuvem escura, negra não parece tanto assim –, “olhe que vai chover... são só dez escudos”, repete a jovem, vezes sem conta, o mesmo proclamo daquela tarde, no falar dela, ameaçando chuva copiosa.
Mas eu, fazendo orelhas moucas, trepei, depressa, a escadaria do palácio dos condes de Alvor, e meti-me dentro do museu das “Janelas Verdes”; começava, naquele preciso instante, a chuviscar.Bem, tinha-me livrado, a tempo, de gastar uns patacos na compra do guarda-chuva, dinheiro que me fazia mesmo falta. Havia chegado a Lisboa, nos finais de Dezembro de 1963, para engrossar, no fim de Janeiro, as fileiras da recruta, em Mafra, e tinha de gizar bem os meus gastos.
Agora, importava mergulhar na Arte Antiga do vasto museu. Lá dentro, logo na primeira sala, um valente estrondo ressoou e a luz deu sinal de se finar. Com aquela tremenda trovoada, cedo me veio à lembrança o meu pai falar do tempo em Lisboa, “em pleno Inverno, há dias seguidos de muito sol, frios de rachar”, e eu quase não queria ouvir o resto da sua recomendação, “mas quando desata a chover, são dias a fio”.
Arrepiei-me só de pensar como chegaria a casa, feito numa grande sopa. Fiz o possível para guardar, para mais tarde, essa apoquentação, já bem evidente, e os sapatos encharcados?... e um resfriado?...
Cada coisa a seu tempo, parecia o melhor conselho, lá isso parecia, só que a consumição ia tomando conta de mim.
De sala em sala, ia admirando as preciosidades de arte antiga, mas o retinir da chuva, a verdascar as grandes janelas, fazia com que desse de caras com a tal moça loira – imagine-se – estampada numa grande tela, a fixar-me intensamente, “olhe que vai chover... são só dez escudos”.
Procurando abstrair-me da situação penosa, que, na certa, me esperava lá fora, decidi-me demorar um bocado, em frente dos célebres Painéis de São Vicente, pedindo, ao patrono de Lisboa, clemência para a pena que iria cumprir no regresso a casa.
Mas não tinha conserto, a chuva era impiedosa, queria ela lá saber da minha angústia, “mas quando desata a chover, são dias a fio”, parecia até que meu pai se estivesse a rir da situação, “és novo, tens muito que aprender...”. Não, ele era incapaz de zombar do meu embaraço. Aligeirei a visita, que deveria ser demorada, e fiquei-me a pensar, junto de um cofre veneziano, como que a adivinhar-lhe o poderio de dinheiro, que tivera em outros tempos, e que daria para comprar todas as lojas de guarda-chuvas do mundo...
Qual seria o melhor caminho, para chegar a casa, ou melhor, que eléctrico, ou autocarro deveria tomar, e ainda, se voltaria a descer a escadaria para a avenida 24 de Julho. Precisava de companhia – um guarda-chuva.
Neste mister, ia a deixar o museu e não é que uma voz conhecida, “olhe que chove... são só doze mil e quinhentos”, voltou à baila, ali no átrio. Era ela, a mesma moça loira, satisfeita com o negócio a correr-lhe de feição.
Não tinha alternativa possível, ou investia no guarda-sol, como se dizia na minha tão distante Ponta Garça, ou, então, sujeitava-me a uma grande molha, até apanhar o primeiro transporte, “esse aí”, decidi-me e apontei para um, com o pano em xadrez. Tirei dez escudos, e, não ligando ao novo preço, meti-lhe na mão duas moedas de cinco.
Isso é que era bom... “não, não, são doze mil e quinhentos”, ripostou vigorosa, e eu apeguei-me ao preço anterior do proclamo, “mas, há bocadinho, eram só dez escudos...”, tentei a minha sorte, “eram, eram, antes de chover, mas agora chove mesmo...”, e esboçou aquele sorriso brando de quem tinha a vida a correr-lhe bem. E pus-me a cismar: a hora do negócio é só uma, é pegar ou largar...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Rua do Frias: casa à venda, casa vendida.

Na Rua do Frias é assim. Ainda mal estava a casa anunciada que era para venda, já logo se vendeu a dita. Ainda no dia 3, aqui se dava conta do excelente preço a que se encontrava e já hoje se foi, para desgosto dos interessados em viver naquela a que Armando Cortes Rodrigues dedicou o "Poema da minha Rua."
Daqui se deram vivas a D. Miguel e se conspirou entre os homens do povo, reunidos em nocturna taberna, já então fartos de pedreiros livres em início de actividade de, vai-se lá saber, quantos séculos de derrapagem civilizacional. E de tão nobre Botequim, daqui foram presos, com os outros mais, ao Forte de São Brás, onde após a célebre revolta dos calçetas, foram sumariamente executados, certamente em nome dos já então proclamados valores ditos da liberdade.
Rua de moagem, de palácios e de casas simples. Rua do tempo da fundação da Cidade.
Rua de António Frias, o pai da Rua, que lhe deu o nome, o Jardim que a encima como uma coroa e a Ermida da Senhora Santanna ; de Francisco Nunes Bago, licenciado do século XVII com raízes em Vila Franca do Campo, onde ainda hoje dá nome à velha Rua do Bago; de José do Canto, cuja imponente estátua, no local da velha casa do licenciado Frias, marca, ao fundo, a serenidade que aquele belíssimo Jardim novecentista lhe oferece; de José Maria Raposo de Amaral, reputado autonomista; de Armando Cortes Rodrigues, poeta cujas culturais tertúlias se repartiam entre a a velha Capital e esta sua Rua; e de tantos outros cujas memórias ainda perdurarão.
Mas é também Rua de gente simples e feliz que encontra, no que resta dos seus ladrilhos, o melhor espaço da cidade para viver: uma Rua com rosto humano cravada no centro da Cidade.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Gregório I

Já lá vão 1405 anos que, no dia de hoje, mas no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 604, falecia em Roma, sua cidade natal, e da qual chegou a ser Prefeito antes de abraçar a vida eclesiástica, o Papa Gregório I, justamente chamado pelo povo de "o Magno", pela obra que deixou.
A ele se deve a conversão das Ilhas Britânicas ao cristianismo, tendo para lá enviado um grupo de quarenta monges beneditinos; do mesmo modo que o seu nome ficou associado à sempre eterna música cuja divulgação promoveu, o canto gregoriano, disciplinando assim a liturgia; além de ter deixado extensa obra escrita.
Três preocupações que, passado quase um milénio e meio, parecem ter voltado ao Papado: a conversão da Europa, o lugar próprio da liturgia e a profundidade científica de que a Fé não se pode alhear.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O Presidente-Rei.

A 11 de Março de 1918, pela primeira vez em Portugal, foi concedido o direito de voto aos analfabetos do sexo masculino, pelas Reformas de Sidónio Pais, um republicano moderado que tentou salvar o País.
A lei eleitoral republicana, aprovada a 14 de Maio de 1911, constituiu uma enorme desilusão, pois limitava ainda mais a participação dos cidadãos na vida política do que no tempo da monarquia. A lei conferia o voto apenas aos cidadãos maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever ou que fossem chefes de família há mais de um ano. O código eleitoral de 1913 excluía, do direito de voto, os chefes de família analfabetos e os militares no activo. O colégio eleitoral da 1ª. República era limitadíssimo, sendo mesmo inferior ao existente na monarquia. Em 1890, recorde-se, haviam sido recenseados 900 mil eleitores e em 1913 já apenas 400 mil. Para agravar esta situação, a abstenção era elevadíssima (40% em 1915. 30% em 1925). Instalados no poder, os republicanos passaram a combater o próprio sufrágio universal, continuando a negar o direito de voto às mulheres, o qual só começou a ser concedido a partir de 1931, com o Estado Novo, com algumas restrições, as quais acabariam por ir sendo eliminadas entre 1946 e 1968.
O sistema eleitoral criado pelo Partido Republicano servia apenas para manter no poder as suas clientelas partidárias. Durante 16 anos, os republicanos impediram sob diversas formas o aumento da participação cívica da população portuguesa. Facto que acabou por minar a sua já de si curta base social de apoio, dado que muito poucos eram os que se sentiam representados no Parlamento ou no Governo, contribuindo para popularizar os regimes ditatoriais.
É no meio deste ambiente que, numa tentativa de apaziguamento das relações com a Igreja Católica, em guerra aberta com o regime republicano desde 1911, Sidónio Pais alterou a Lei de Separação entre as Igrejas e o Estado, suscitando de imediato feroz reacção dos republicanos históricos e da Maçonaria, mas colhendo o apoio generalizado dos católicos, dos republicanos moderados e da população rural, então a vasta maioria dos portugueses.
Fazendo uso da sua popularidade, foi eleito, a 28 de Abril de 1918, por sufrágio directo dos cidadãos eleitores, obtendo 470 831 votos, uma votação sem precedentes. Foi proclamado Presidente da República a 9 de Maio do mesmo ano, sem sequer se dar ao trabalho de consultar o Congresso e passando a gozar de uma legitimidade democrática directa, que usou sem rebuços para esmagar qualquer tentativa de oposição.
Certamente por isso, morto que foi o acarinhado pelo povo, então chamado de Presidente-Rei, por republicanos radicais, voltados ao poder, logo suprimiram o sufrágio universal independentemente do grau de instrução.
Hoje não se precisam dar a este trabalho: os ignorantes já são letrados e, modernos que também o são, tudo consentem, pois se os de nome badalado o defendem é porque assim é que está na moda.

terça-feira, 10 de março de 2009

Março, marçagão, manhãs de Inverno e tardes de Verão.

Assim se quer Março, com bom tempo, pois já diz o ditado que "Inverno de Março e seca de Abril, deixam o lavrador a pedir." Pois então o tempo tem andado pelas seguras previsões optimistas dos antigos. Dá gosto sair à Rua e perceber o sol que irradia alegria. É tempo de recomeçar passeatas e arejos. Bem fez o sábio Professor Jorge que já está de regresso ao mar!

segunda-feira, 9 de março de 2009

Uma Nova Geração.

Tem 12 anos e o seu nome é Lia. A sua escola, em Toronto, propôs um trabalho aos estudantes: fazer um vídeo em casa. Ganhou o primeiro lugar. Porém, suscitou uma “controvérsia assombrosa”, pois escolheu o tema do aborto, com grande desenvoltura e precisão de conceitos pela vida. O seu trabalho já foi visto por centenas de milhares de pessoas, no Youtube. Lia escolheu o tema contra a opinião da mãe, sendo a professora uma feminista pró aborto "pelo direito de decidir", mas teve que ceder perante a convicção pura e corajosa da aluna. O painel de juízes da escola não queria aceitar o tema, tendo um deles protestado e renunciado à função. Mesmo assim, Lia não arredou. Tinha o apoio entusiasta e unânime dos seus colegas. No final, o seu trabalho foi considerado e mereceu o primeiro prémio. A própria professora reconheceu que Lia a fez reflectir.
Interessante sinal, pois se, na geração dos seus pais, o facto de ser pelo aborto ficava bem e era moderno, agora, às novas gerações, começa a causar horror. O mundo começa a dar sinais de mudança. Já não são as, aliás bem envelhecidas, “Católicas pelo Direito de Decidir”, lideradas por uma ex-freira, que representam as tendências com futuro.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O Sagrado Lausperene.

Lausperene significa louvor perene ou eterno. É tradição bem própria da Quaresma, nestas nossas Ilhas, a Exposição Solene do Santíssimo Sacramento, no trono da Capela Mor, ornamentando-se a preceito a Igreja, com as flores próprias da época e as luzes cintilantes de lamparinas e velas ferforosamente a arder.
O Lausperene teria originariamente a duração de 40 horas, em memória do período que o corpo de Jesus passou no túmulo até à Ressurreição.
Em Lisboa, o Santíssimo Sacramento está exposto à adoração dos fieis desde 1556, por instituição do arcebispo de Lisboa, D. Luís de Sousa, ininterruptamente, percorrendo, por escala, as diversas igrejas da cidade, durante 48 horas.
Por cá a tradição cingia-se a uma noite, ou, em alguns casos, às 24 horas do dia. Mesmo assim, foi caindo em desuso. Felizmente, hoje, começa a recuperar-se, percebendo-se o brilho e a solenidade a que deve estar associada a Exposição do Santíssimo Sacramento. Assim é que, ao fim de décadas, e com o empenho do seu novo Prior, Domingo, na Matriz do Arcanjo desta Ilha, o Sagrado Lausperene está de regresso.

quinta-feira, 5 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Leilão de Antiguidades.

Nos dias 10, 11 e 12 de Março, decorre em Lisboa, no Palácio do Correio Velho, um grande leilão de antiguidades, o qual conta com um importante núcleo de pintura portuguesa e estrangeira, como a do filho pródigo, aqui retratada; jóias; faiança portuguesa do séc. XVII ao séc. XIX; edições especiais numeradas da Vista Alegre; esculturas em bronze; mobiliário português e estrangeiro; pratas do final do séc. XVII ao final do séc. XX; porcelana chinesa; entre outras peças, num total de 830 lotes. Aqui fica o endereço:

terça-feira, 3 de março de 2009

Viver no Centro da Cidade III

A preço excelente, em plena Rua do Frias, encontra-se à boca de venda, esta bonita casa em pedra.