sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ao Dia da Restauração.

Um romance histórico de grande interesse, passado num dos periodos mais ricos da nossa história. Conturbados tempos em que a Nação vivia da corajem e da honra dos valentes que a defendiam.
Uma obra de Isabel Ricardo, com riquíssima pesquisa histórica, de agradável leitura.

3 comentários:

Edgardo disse...

Olé para vocemecês para aí. Estará fresquinho em Lixabona? Já comeram castanhas da rua?
Aqui vos remeto meu calor, para ajudar...

PS - Sum Estevão Gago da Câmara terminou a sua croniqueta de hoje no longíncuo Aço. Oriental com um "Viva o Rei!" Assim, lembra a festa... Não há vida como esta...

GUSMÃO disse...

E Viva o Sum Edgardo!

JBS disse...

Viagens no Tempo

O Paço da Senhora da Vida

“Senhora D. Margarita...”, e ela altiva, logo atalhou, “diga duquesa de Mântua...”, não me contive, “pois seja! Prefere sair pela porta, ou...”

A caminho da Vila, pela rua terreira, ia dizendo aos meus irmãos, “por aqui abaixo é a Fonte da Sinhara”, e eles, ouvindo-me com a bondade do sangue, corrigiram-me, “senhora...”; e de seguida, ali ao Outeiro dos Burricos, continuava, “esta foi a minha primeira escola”, só até ao Natal da primeira classe – estava tão contente ao lado deles.
A dois passos, recatada do caminho – num encanto de casa, a pequena jóia da terra – lá estava o refúgio de veraneio dos Botelhos, meus primos, a estufa de ananases e mais uns repeniques graciosos, “vamos Nuno, e o Francisco?”, disseram os meus.
Mas é assim; nem sempre a melhor gema que faz feliz a ditosa senhora, à outra lhe cai tão bem – despeito? – e lá se foi a beleza do bom gosto do professor António Augusto para que outra casa, bem maior, ocupasse hoje o seu lugar – e tudo bem.
E sempre seguindo, agora com os Botelhos, o agrado do fresco do fim de tarde mimava o consolo de se ir para a festa. Os moinhos ali às Onze Águas, “boa tarde, tio José Touré”, tangia ele o burro, à boca da canada, carregado de moenda; e a loja do mestre Manuel Curvelo e a do senhor Inácio, cheias de freguesia para as compras de sábado, tudo isso, eram os marcos que eu ia conhecendo.
Calçado, o Verão no auge, penteado a preceito, calção curto e camisa, tudo novo, e obra de minha mãe, “tem cuidado que essa roupa...”, pois iria servir para a Senhora da Piedade, e lá fomos radiantes na caminhada de quem almejava a festa – o fogo do Senhor da Pedra.
Parecia que o caminho terreiro chegava ao fim, e aquele nosso sapatear na calçada dava uma nota de modernidade, o primor de se sentir já na Vila; “a Ponta Garça acaba aqui”, disseram-me meus irmãos com aquele propósito de tudo ir sabendo – toda a minha gente era assim.
Realmente, dava a ideia de que outra terra, porventura a melhor vila das ilhas, se avizinhava, mas ainda não.
Um rico fontanário – talvez obra do morgado Nuno Gonçalves, 1º Visconde do Botelho – anunciava o gosto apalaçado do rico senhor, “aqui é o Paço da Senhora da Vida”, e perguntei maravilhado com o palacete, “não é aqui que mora o senhor Visconde?!” – era, mas o do meu tempo, que o antigo nascera no século XVIII.
Assombrado com a maravilha do paço secular, o asseio do empedrado de rua limpa, continuei na marcha, desejoso por aquele fogo preso, mas detive-me adivinhando-lhe o requinte de grandes salões, ricas mobílias, baixelas, senhoras e cavalheiros trocando-se de razões cordatas, muita criadagem a traquinar pela demasia de tanta casa, e, sem dar por isso, tropecei num regato, pudera, tinha-se acabado a calçada...
Que importava ter a Ribeira das Tainhas pela frente e a calçada chegado ao fim... e fui-me num devaneio que logo imaginei um ataque à mansão abrasonada – o quê? Um assalto?!
E por que não? Então, não poderia o augusto solar albergar uma pequena corte de gente faz-de-conta? – o rei estava longe, a milhares de quilómetros do Terreiro do Paço.
Agora, a Mudança trouxera o Senhor Bom Jesus, da Misericórdia para a Matriz, o arraial animava, a Vila estremecia com o fogo nos ares e uma luta feia, entre um navio e artilheiros de costa, decidiu a contenda a favor dos pés-descalços.
Durante todo o arraial pensara naquele despautério de gente nossa desterrada pelas Europas, cientes daquele orgulho de antes morrer livres que em paz sujeitos. Bem, só faltava decidir-me – num golpe fatal – destronar os intrusos no esplêndido Paço da Senhora da Vida.
Noite alta e de volta à Ponta Garça, o primo Antonino, aos comandos da besta, retomava na chã o trote pausado, matraqueando as ferragens do macho na calçada do palacete. Aí, o charabã, pintado de verde e com vivos vermelhos, desfilava brioso diante da imponente fachada que deslumbrava e refulgia num mar de luz – soberbo.
Já deitado, cansado, não me saía a ideia de afrontar os usurpadores, banqueteando-se à nossa custa, e pus-me a matutar, planeando... – mas guerreiro tem que descansar, pois tem – e caí num sono profundo.
Dormi num sonho muito agitado – não era para menos – uma caterva de mortos jazia pelos corredores do Paço da Senhora da Vida, e um tal Miguel – que coisa mais estranha – alguém o embrulhara em papéis, o selo branco cravado no peito – estaria morto? Penso que sim...
O meu devaneio estava imparável. Foi então que me encarei com uma distinta Dama de Castela, deambulando nervosa no vetusto salão, voltado ao pátio da entrada, “que é isto, cavalheiro?!”, e desferi-lhe o último golpe, “senhora D. Margarita...”, e ela altiva, logo atalhou, “diga duquesa de Mântua...”, não me contive, “pois seja! prefere sair pela porta, ou...”, e, numa gritaria que vinha de baixo, do pátio – “matem-na! matem-na!” –, ela ainda hesitava; oh, que braveza me deu! Escancarei uma portada que dava para um balcão, e ainda lhe presenteei a bondade de outra hipótese, “senhora... duquesa... quer mesmo sair, e já, pela janela?!” – pobre Margarita de Sabóia.

2008-11-29
Bento Sampaio

P. S. – 1. Há que dizer que o belo paço não nos fica já no caminho. Uma ginástica de permutas trancou-nos o gozo de fruir tão ilustre mansão, pelo menos com um simples olhar.
2. Ficou-se a Maia com menos uma das suas pérolas – a D. Zulmira Maria da Conceição Ponte – uma bondade pequenina, aqui da rua, que se enfeitava daquele sorriso sempre feito, “já venho da missa...”, isto se calhava encontrarmo-nos.